Um morador escreveu um requerimento
Neste conto, o escritor russo Evguêni Kharitónov narra o requerimento de um homem ao Escritório de Moradia e Manutenção sobre a troca do assoalho e a dificuldade para resolvê-lo
Este conto foi publicado em maio de 2018 no número 20 da revista Cadernos de literatura em tradução, da Universidade de São Paulo, com tradução de Yuri Martins de Oliveira. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 23 de setembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Um morador escreveu um requerimento ao JEK¹, pois o assoalho da cozinha tinha afundado, e o linóleo, fendido, precisava trocar. Ele, a princípio, foi falar com os mestres de obra, estes cobravam vinte e cinco rublos por trabalho. Mas acontece que o JEK faz de graça. A secretária disse – escreva um requerimento ao diretor, primeiro precisa que a encarregada-técnica venha ver, depois é que vão começar. Entregue este requerimento à encarregada-técnica, só que quem dará a autorização é o diretor. A encarregada-técnica veio depois de dois dias, disse que era preciso trocar todo o assoalho da cozinha; se só tapar os buracos, fica malfeito, a base antiga vai começar a ruir em volta (a base era feita não de tábuas, mas de serragem prensada); só que nós não temos linóleo. Depois de mais uns dois-três dias, por ordem dela, veio o mestre de obras, aquele que pedira vinte e cinco rublos pelo trabalho, deu uma olhada, disse não podemos fazer, não temos linóleo. O morador diz pois o linóleo está aqui, olhe, e já faz tempo, eu mesmo comprei². – Ah, então esvazie a cozinha, volto já com meu ajudante. O morador tirou as coisas pesadas. O mestre liga não precisa tirar nada, não iremos, não temos as ripas. O morador liga para a mulher-encarregada – como é que eles não vêm? disseram para esvaziar a cozinha, e agora não têm ripas? Ela titubeou ao telefone – espere um instante... hum... é, não temos as ripas. – E quando é que vão ter? – Daqui uns dias vão trazer, nós ligamos pro senhor; mas faremos até o final da semana. Passam-se alguns dias, ele mesmo liga – quando vão ter as ripas? Ela diz o senhor ligue de tempos em tempos pra nós. Então ele liga e dizem que vai chegar dali uns dois dias; aí ele liga dali dois dias e dizem que não se sabe quando vai chegar. As ripas, dizem, estão no depósito, mas não tem carro pra trazer. Pois então finalmente ele foi dar queixa da encarregada-técnica, e dizem – acabaram de trazer as ripas, amanhã mesmo começamos. No dia seguinte, aquele mestre de obras vem, diz esvazie a cozinha, já vamos começar a fazer, e mede para ele o linóleo novo, como se fosse cortá-lo. Passa uma hora, nada do mestre. O morador liga, chamam o mestre ao telefone: mas nós vamos começar amanhã, ou então vamos ter de desligar o seu gás, e aí o senhor vai ficar dois dias sem gás. – Mas que diferença faz vocês desligarem o gás hoje e começar só amanhã? dá na mesma; vocês disseram que vinham já, eu estou esperando, esvaziei a cozinha. – Está bem, vamos agora então. Passa uma hora e mais um pouco, o morador se veste e vai à oficina, na rua. O tal do mestre não está lá, está o ajudante, embriagado. O ajudante diz volte amanhã. O morador diz mas o mestre acabou de me dizer pelo telefone que já estava chegando; onde ele está? – Ele saiu pra atender um chamado; saiu pra almoçar; ele me disse que ligou pro senhor, mas não tinha ninguém em casa. – Pois eu mesmo falei com ele, medimos juntos o linóleo, ele disse que vinha já, e com as ripas, três horas e nada, aonde ele foi atender esse chamado, em qual casa? eu vou lá encontrá-lo. O ajudante diz – anote, e estende um contraplacado. – Pode falar, fale, eu vou lembrar. Mas o ajudante tinha estendido o contraplacado para que o morador escrevesse ali o seu endereço. – Pra que o meu endereço, o mestre já esteve em casa. – Tá, como quiser. – Você me diga aonde ele foi atender esse chamado, em qual casa, eu vou lá encontrá-lo. O ajudante então deu o tal endereço, trocando os números com os do endereço do morador. O morador foi até a encarregada-técnica dar queixa do mestre de obras. Ela voltou com ele até a oficina, começou a xingar o ajudante, o mestre ainda não tinha chegado, e o outro dizia – o mestre foi de manhã ao apartamento daquele morador que afundou o chão da cozinha, disse que ele não estava em casa, que iríamos amanhã. O morador nem retrucou, viu que seria inútil. A encarregada-técnica ordenou ao ajudante que começasse o trabalho, serrasse as ripas em pedaços do tamanho da cozinha, de quebra ainda expulsou da oficina as pessoas que, como ela acertadamente suspeitara, tinham vindo beber com o ajudante, e foi embora. O ajudante diz – mas como é que eu vou cortar, não sei o tamanho da sua cozinha. Mas todas as cozinhas eram idênticas no bairro todo. O morador diz – está bem, venha comigo fazer a medição. Eis que chegam, ajudante e morador, em casa, o ajudante faz a medição daquele jeito, a régua a torto e a direto, e ele dizendo – tanto faz, antes de três dias não podemos começar, o linóleo tem de ficar descansando três dias antes de fazer o revestimento. – Pois é, mas já faz trinta e três dias que ele está descansando no meu quarto! E aí o ajudante diz – Ah, mas se o senhor tem o seu próprio linóleo é outra história, dá pra começar amanhã; então pra quê que eu medi a cozinha pra ver de que tamanho cortar as ripas, se todas as cozinhas são idênticas no bairro todo?; já que o senhor tem o linóleo, e já ficou descansando, então amanhã dá pra começar. – Como assim amanhã, o mestre veio e disse que começava hoje; comece hoje; se não conseguir terminar, amanhã você continua; vá pelo menos serrar as ripas do tamanho certo e trazer pra cá. O ajudante disse tanto faz, sem o mestre não posso. – Não pode o quê? Não pode serrar? – Serrar eu posso, mas como vou trazer? os sarrafos são grandes, não tenho força de carregar. – Está bem, você vai e corta tudo na oficina e me liga, se o mestre não estiver lá, eu desço e ajudo você a trazer até aqui. E o morador deu a ele o seu telefone. Lá estava o morador esperando, esperando, e o ajudante não ligava. Ah, vai se foder. O morador outra vez se vestiu e foi até lá à oficina. O ajudante estava sentado, fumando, não tinha nada serrado. O morador diz – o que aconteceu? E o ajudante responde não aconteceu nada: é que primeiro a encarregada-técnica tem que vir e ver o quanto que pode gastar de ripa pros consertos. – Pois não preciso de consertos, preciso que façam o assoalho inteiro. – Não sei de nada, amanhã o mestre vem e decide o quanto de ripa precisa, como fazer os consertinhos, ou se é o assoalho todo, mas eu não sei de nada. – Mas ela viu tudo um mês atrás. – Não sei, não sei de nada, vá falar com ela. O morador vai outra vez até a encarregada-técnica, esta diz bem, o que fazer, um é um bêbado, o outro sabe-se lá onde está, o que fazer; amanhã iremos e faremos tudo, faremos os consertos, eu vou acompanhar. No dia seguinte, de fato, vieram e fizeram.
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¹Abreviação de Жилищно-Эксплуатационная Контора, isto é, Escritório de Moradia e Manutenção, órgão responsável pela administração regional das moradias nas cidades soviéticas. Criado em 1959, permaneceu em atividade até 2005. (N.T.)
²A pontuação no original está fora dos padrões russos e não é possível ter certeza de quem fala, se narrador ou personagem. A tradução, assim, reproduz o estilo do original.
Evguêni Kharitónov (1941 - 1982) nasceu em Novossibirsk, uma das maiores cidades da Sibéria. Aos 17 anos, parte para Moscou para ingressar no Instituto Guerássimov de Cinematografia, no qual se forma ator. Depois de atuar em pequenos papéis no cinema, Kharitónov retorna ao Instituto e defende a dissertação de mestrado e torna-se professor universitário. Nos 1970, além das aulas que ministra no Instituto, Kharitónov dirige peças de teatro e abre seu próprio estúdio de artes cênicas, dedicando-se, paralelamente, à literatura. Com o conto “Forno”, de 1969, o escritor começa a delinear o estilo característico, e também passa a tratar do tema que se tornará central em sua obra: a homossexualidade masculina.

