Um mapa de livrarias da Filadélfia que inspirou outro de São Paulo
Cecilia Arbolave relata como encontrou um mapa de livrarias da Filadélfia e também compartilha impressões da cena de livrarias de Nova York.
Livreiros de rua de São Paulo vinham confabulando sobre o que fazer para chamar a atenção dos leitores. Depois de um marcador de páginas e eventos coletivos nos últimos dois anos, havia a vontade de criar um mapa impresso. O último empurrão veio de uma viagem aos Estados Unidos.
Estive em terras norte-americanas em abril deste ano graças a um convite da Universidade de Princeton para participar de um evento sobre edição na América Latina. O Brasil estava representado pela minha editora, a Lote 42, e também havia editores do México, Uruguai e Peru.
Aproveitei a viagem para ficar uns dias em Nova York, a 70 km de Princeton, e visitar o máximo de livrarias que pudesse. Mapeei algumas antes da partida, mas pautei o roteiro pelas indicações dos próprios livreiros. Foi assim que da mítica Printed Matter, referência em publicações independentes e de arte gráfica, no bairro Chelsea, cheguei na bela Codex, no Noho, especializada em ficção, arte e filosofia.





Ouvi alguns novaiorquinos lamentar como o número de livrarias anos atrás era maior. Ainda assim são muitas na cidade, cada uma com seu charme, sua trilha sonora, sua forma de indicar livros, sua ambientação e curadoria.
Quase no fim da viagem entrevistei no Brooklyn Andy Hunter, CEO da Bookshop.org, uma iniciativa que fortalece livrarias de rua — a matéria saiu no Estadão um tempo depois. Naquele dia, um pouco antes do encontro, passei por duas livrarias de Williamsburg: a Quimby’s (dedicada a publicações alternativas, que começou em Chicago) e, uns passos à frente, a Desert Island, que estreava fazia poucos meses num novo endereço por causa da especulação imobiliária.
Perguntei para o Gabe Fowler, livreiro da Desert Island, se tinha indicações da Filadélfia, para onde eu iria no dia seguinte. Ele apontou a Partners and Sons, também especializada em quadrinhos.






Cheguei na Filadélfia numa sexta-feira de manhã, pouco antes das 10h. Comecei a caminhar em direção ao bairro icônico Old City. Poucas lojas estavam abertas, apesar do dia útil. Sem querer, me vi na frente da The Book Trader. Abria às 11h, mas o dono me deixou entrar. No fim da visita, repeti o ritual e pedi indicações. Ele começou a fuçar atrás da mesa e me entregou um mapa com o desenho de 46 fachadas de livrarias de rua. A recomendação mais completa da viagem.


Ao sair, mandei uma foto do Philadelphia Bookstore Map para um grupo de livreiros de São Paulo com quem volta e meia me encontro para compartilhar alegrias, angústias e desejos. Nos últimos três anos, agitamos algumas ações junto, como a campanha Ame livros o ano todo, visite as livrarias de rua e a Festa do Livro das Livrarias de Rua, com descontos nas próprias livrarias durante a Festa do Livro da USP. Pela Lote 42, organizamos o Circuito Livreiro que tinha um passaporte de livrarias.



Desde os primeiros encontros havia uma vontade latente: criar uma peça impressa que estimulasse as pessoas a irem às livrarias. Muita gente ainda não conhece o ciclo do livro, as figuras envolvidas, as dinâmicas comerciais. Há um consenso de que as livrarias fazem bem às cidades, mas os desafios diários desses empreendimentos não são escancarados. Muitas delas estão, de fato, na corda bamba. Para as livrarias sobreviverem, é importante visitá-las, indicá-las, comprar livros nelas. Essa era a mensagem que queríamos passar. Naquela peça cartográfica da Filadélfia que tinha em mãos, a ideia estava materializada.
Lembrei da indicação do Gabe e encontrei a Partners and Sons num miolo de ruas com uma concentração maior de livrarias – tanto que no verso do mapa essa área estava ampliada. Me lembrou a Zona Livreira, uma ação que fizemos em março com cinco livrarias bem próximas entre si (Banca Tatuí, Livraria Gráfica, Sentimento do Mundo, Ponta de Lança e Sebo da Ponta).
A simpática Gina Dawson me recebeu na Partners and Sons. Mostrei o mapa e ela perguntou, surpresa, onde o tinha conseguido, já que estava esgotado fazia tempo. Descobri que foi ela justamente uma das coordenadoras daquele projeto. A tiragem de 50 mil exemplares teve apoio da prefeitura. Soube depois que o ilustrador Henry Crane levou um ano para fazer os desenhos.
Na livraria havia uma exposição de Anders Nilson, quadrinista que admiro pelo seu belíssimo livro The End. E a Gina ainda me mostrou um cobertor com um desenho chamativo: um produto que a editora local Beehive Books desenvolveu durante a pandemia, quando não podiam fazer livros já que dependiam da impressão fora dos Estados Unidos. Eu iria encontrar o editor, Josh O’Neill, que também teve um passado livreiro, naquela mesma tarde.




Saí da Partners and Sons pensando nas coincidências todas e desde aquele dia o mapa de livrarias da Filadélfia não sai da minha mochila.
Um tempo depois, em conversas com livreiros de São Paulo, começamos a pensar uma maneira de articular esse projeto e colocá-lo de pé. Foi um trabalho coletivo e, em pouco mais de dois meses de produção intensa, o mapa saiu. São 37 livrarias retratadas pela Isadora Ferraz e com projeto gráfico do MZK. O que começou com uma vaquinha entre livreiros, ganhou corpo com patrocínio e apoio de agentes da cadeira do livro. João Varella e Adalberto Ribeiro contaram os bastidores num episódio recente do PublishNews, assim como as ideias que movem essa iniciativa.
O projeto tem tido uma boa repercussão e considero isso importante porque as livrarias estão em pauta. E aqui não me refiro às 37 específicas em pauta, mas às livrarias em geral, fundamentais para o ecossistema editorial, para a cultura e para a cidade. Mais gente nas livrarias, não importa quais, representa uma vitória coletiva da cultura literária.
Lista (incompleta e aleatória) de livrarias de Nova Iorque e Brooklyn
NOVA IORQUE: Printed Matter (referência na publicação independente), Codex (ficção, arte e filosofia), Books of Wonder (literatura infantil), Strand Bookstore (acervo gigante de livros novos e usados), Forbidden Planet (quadrinhos e cultura pop), Village Works (tem uma vibe meio punk e um bom acervo de livros sobre sobre NYC), Dashwood Books (fotolivros e arte), McNally Jackson (uma clássica que sempre vale visitar), Yu & Me Books (indicada pela Aigo, fica em Chinatown), Rizzoli Bookstore (super elegante), Casa Magazine e Casa Next Door (revistas + livros + fanzines).
BROOKLYN: Human Relations (da mesma galera da Codex), Black Spring Books (com fachada misteriosa, muito charmosa no interior), Mil Mundos Books (especializada em literatura latinoamericana), Quimby’s (referência em literatura alternativa, tem uma gata livreira, a Gracie - foto acima, no meio do texto) e Desert Island (belo acervo de quadrinhos).
Este texto amplia o Boletim Tatuí nº 153



Amei o relato e esse mapa da mina.