Poemóbiles: um livro-curso de produção gráfica
Neste texto, Cecilia Arbolave compartilha as escolhas envolvidas na quarta edição do livro emblemático de Augusto de Campos e Julio Plaza
A olho nu, Poemóbiles já mostra sua complexidade gráfica. São 12 poemas tridimensionais e mais 1 pop-up com uma folha de rosto. E sim, é difícil de produzir. Mas não é impossível.
A produção gráfica de um livro não é só acompanhar a impressão. Ela está presente desde os primeiros esboços e orçamentos. Antes de avançar com a diagramação, é necessário entender a viabilidade técnica e financeira do livro idealizado.
Diagramar o livro inteiro e só depois orçar pode levar a sustos que tiram o sono de qualquer editora. Melhor saber logo no início o tamanho da encrenca e avaliar eventuais ajustes para torná-lo viável.
E é por isso que livros com características diferentes dos formatos convencionais não podem apressar a etapa de orçamento. No caso de Poemóbiles, de Augusto de Campos e Julio Plaza, não foi diferente.
No final do ano passado, João Varella consultou o editor Vanderley Mendonca, sobre a possibilidade de uma coedição do Poemóbiles pela Lote 42 e a Selo Demônio Negro. Aquele livro tão emblemático estava esgotado e precisava voltar a circular. A resposta não demorou em vir: vamos nessa.
Vanderley nos passou um arquivo de Word com as características e imagens de referência. Com isso em mãos, poderíamos começar a etapa do orçamento, que foi crítica. Algumas gráficas não quiseram nem arriscar. Outras enviavam valores astronômicos. Era compreensível: a produção de 13 pop-ups e uma caixa é de fato complexa, com processos que geralmente são terceirizados.
Vanderley nos lembrava que não podíamos mudar o projeto original do livro. Apenas colocamos os dois logos das editoras na capa e incluímos informações pontuais junto da ficha catalográfica. Aliás, quem quiser espiar a primeira edição, assista neste link um vídeo de um exemplar de 1974 que encontramos na biblioteca Firestone, da Universidade de Princeton.
Caco Suriani, da Ogra Oficina Gráfica, se interessou pelo projeto, preparou bonecos e marcou uma reunião para discutirmos duas soluções que poderiam facilitar a produção e melhorar o resultado final.
Uma delas era a montagem do pop-up: ao invés de colar uma folha em cima da outra, o pop-up seria impresso em uma única folha, passaria pelo processo de corte e vinco e depois seria dobrada pela metade. Caco argumentou que isso facilitaria demais o acabamento e também garantiria ainda melhores resultados. A seguir imagens de um dos poemóbiles, ainda sem a cola.



A outra sugestão foi usar o papel-cartão ao invés do papel offset. O motivo: a composição do papel daria melhor estrutura ao pop-up e também, graças ao lado revestido, não absorveria tanto a cola, gerando menos ondulações na superfície. Concordamos com a proposta e Vanderley lembrou que as primeiras edições do livro usavam papel-cartão.
No entanto, para decidir, precisávamos ver na mão como os papéis se comportavam. A Ogra preparou três bonecos: um no papel offset 240 g/m² branco, outro no papel-cartão 190 g/m² de tonalidade amarelada (a gramatura menor, porém apresentava mais estrutura) e por fim um terceiro boneco de papel-cartão 210 g/m² (com tonalidade que puxava para o branco, porém era mais quente que o offset). O primeiro ondulava, o segundo ficava mais marcado pelos cortes dos pop-ups. O terceiro se comportava melhor e foi o suporte escolhido.
A caixa do livro foi impressa em offset usando escala CMYK (ciano, magenta, amarelo e preto). Já os poemas foram feitos com três tonalidades da escala Pantone. A cor é um elemento fundamental neste livro, então o caminho foi pelas cores puras ao invés das compostas.
Ainda há outros conceitos que entraram em jogo, como o desenho da caixa que acomoda os pop-ups, uma engenharia feita por Julio Plaza – aliás, o responsável por criar essas estruturas que viraram poemas na ótica de Augusto de Campos.
Ou poderia falar das facas, aquelas estruturas de madeira com lâminas metálicas para fazer os cortes necessários para a montagem dos pop-ups.
Poemóbiles é um curso de produção gráfica nele mesmo.
Cecilia Arbolave é uma jornalista e produtora gráfica argentina, sócia da Lote 42, Banca Tatuí e Sala Tatuí. Escreveu O livro de fazer livros: produção gráfica para edições independentes (Lote 42, 2024), Sapos e Sonhos (Livraria Gráfica, 2024), entre outros.
Este texto amplia o Boletim Tatuí nº 128. Inscreva-se para receber o conteúdo semanalmente em sua caixa de e-mails.








Que lindo!