Paz civil
Neste conto, o romancista nigeriano Chinua Achebe traz uma narrativa escrita logo após o fim da guerra civil nigeriana abordando os primeiros dias do conturbado acordo de paz de 1970
Este conto foi publicado em julho de 2021 no número 23 da revista Cadernos de literatura em tradução, da Universidade de São Paulo, com tradução de Lívia Pacini Martuscelli. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 22 de julho de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Jonathan Iwegbu considerava-se um grande sortudo. Para ele, ‘Happy Survival!’ era muito mais do que a simples moda corrente de cumprimentar velhos amigos nos primeiros dias nebulosos de paz. Ressoava profundamente no seu coração. Ele saíra da guerra com cinco bênçãos inestimáveis – a sua cabeça, a cabeça da esposa Maria e as cabeças de três dos seus quatro filhos. E ainda de bônus lhe sobrara a antiga bicicleta – um milagre também, mas naturalmente incomparável ao da segurança de cinco cabeças humanas.
A bicicleta tinha a própria historieta. Um dia, no auge da guerra, foi requisitada ‘para ação militar urgente’. Por mais que a dor da perda pudesse ser grande, ele não pensaria duas vezes antes de abrir mão dela se não fosse a dúvida quanto à autenticidade do oficial. Não foram os seus lastimáveis andrajos nem os dedos dos pés espiando pelos sapatos de lona, um pé marrom, o outro azul, nem sequer as duas estrelas da insígnia, obviamente desenhadas com pressa e caneta esferográfica, que perturbaram Jonathan; muitos soldados bons e heroicos tinham aspecto igual ou pior. Fora mais uma certa falta de autoridade e firmeza nos seus modos. Logo, Jonathan, ao suspeitar de que ele pudesse ser passível de influência, vasculhou a bolsa de ráfia e pegou as duas libras com as quais havia saído para comprar lenha que a sua esposa, Maria, vendia a oficiais acampados para comprar mais peixe desidratado e farinha de milho, e recuperou a bicicleta. Na mesma noite, enterrou-a na pequena clareira, no mato onde os mortos do acampamento, incluindo o seu próprio filho caçula, estavam enterrados. Quando ele a desenterrou um ano mais tarde, após a rendição, bastou que a lubrificasse com um pouco de óleo de palma. “Deus não conhece enigmas”, disse, embevecido.
Colocou-a em uso imediatamente como táxi e acumulou uma pilha modesta de dinheiro biafrense transportando oficiais acampados e as suas famílias por um trecho de seis quilômetros até a estrada asfaltada mais próxima. Cobrava uma tarifa padrão de seis libras por viagem, e quem tinha dinheiro ficava feliz em poder, dessa forma, se livrar de uma parcela do total. Ao fim de uma quinzena, já havia juntado uma pequena fortuna de cento e quinze libras.
Depois, seguiu para Enugu, onde havia outro milagre esperando por ele. Era inacreditável. Esfregou os olhos, olhou de novo e o milagre ainda estava lá, diante de si. Porém, era evidente que até mesmo aquela dádiva monumental deveria ser considerada absolutamente inferior às cinco cabeças da família. O mais novo milagre era a sua casinha em Ogui Overside. É verdade que Deus não conhece enigmas! Não mais do que a duas casas de distância, um enorme edifício de concreto que um empreiteiro abastado havia erguido logo antes da guerra não passava agora de uma montanha de escombros. E lá estava a pequena casa de zinco de Jonathan, construída sem arrependimentos com blocos de terra, relativamente intacta! É claro que faltavam as portas e janelas e cinco telhas.
Mas isso não era nada! De qualquer forma, ele havia retornado para Enugu a tempo de catar pela vizinhança pedaços velhos de zinco, madeira e placas de papelão ensopadas antes que outros milhares saíssem das suas tocas na floresta em busca das mesmas coisas. Arrumou um carpinteiro desvalido com um martelo velho, uma plaina sem corte e alguns pregos tortos e enferrujados na caixa de ferramentas para transformar o sortimento de madeira, papelão e metal em uma porta e em janelas venezianas por cinco shillings nigerianos ou cinquenta libras biafrenses. Ele pagou e se mudou com a sua família exultante, carregando cinco cabeças sobre os seus ombros.
Os seus filhos colhiam mangas perto do cemitério militar e as vendiam às esposas dos soldados por alguns centavos – de verdade dessa vez – e a sua mulher começou a fritar àkàràs para os vizinhos, ansiosa por recomeçar a vida. Com os ganhos da família, ele levou a bicicleta às vilas próximas e comprou vinho de palma fresco. De volta à casa, misturou-o a uma quantia generosa da água que há pouco tempo voltara a correr da torneira pública da estrada e abriu um bar para os soldados e outras pessoas afortunadas que tinham um bom dinheiro.
No começo, ia aos prédios da Corporação de Carvão, onde trabalhara como mineiro, todos os dias, depois, em dias alternados e, finalmente, uma vez por semana, para descobrir em que pé estavam as coisas. Só descobriu que aquela sua casinha tinha sido uma bênção ainda maior do que imaginara. Alguns de seus ex-colegas mineiros que não tinham para onde voltar após um dia de espera simplesmente dormiam para fora, na porta dos prédios, e cozinhavam o que quer conseguissem filar na rua em latas de achocolatado. Conforme as semanas foram se estendendo sem que ninguém conseguisse dizer em que pé as coisas estavam, Jonathan interrompeu as suas visitas semanais de uma vez e encarou o seu bar de vinho de palma.
Mas Deus não conhece enigmas. Chegou o dia da bonança inesperada, quando, após cinco dias de brigas intermináveis em filas e mais filas sob o sol à porta do Departamento do Tesouro, ele segurou na palma da mão vinte libras oferecidas a título de recompensa ex gratia pelo dinheiro rebelde que havia entregado. Quando os pagamentos começaram, foi como se o Natal tivesse chegado para ele e muitos outros iguais a ele. Todos começaram a chamá-lo (já que poucos conseguiam pronunciar o nome correto) de “é de graça”.
Assim que as notas foram depositadas em sua mão, Jonathan só as apertou com força e enterrou punho e dinheiro no bolso da calça. Ele precisava ter muito cuidado, pois, há uns dias, tinha visto um homem tombar à beira da loucura na frente da multidão oceânica, porque, mal havia posto as mãos nas vinte libras, um rufião desalmado as tomara de si. Embora não fosse justo que um homem em tamanho estado de agonia levasse a culpa, muitas das filas naquele dia foram capazes de comentar silenciosamente sobre a falta de cuidado da vítima, principalmente depois que ele puxou o bolso para fora e revelou um buraco grande o bastante para passar a cabeça de um ladrão. Mas é claro que ele insistira que o dinheiro estava no outro bolso, puxando-o também para mostrar a comparativa falta de buraco. Logo, era necessário ter cuidado.
Jonathan tratou de passar o dinheiro para a mão e para o bolso esquerdo a fim de deixar a mão direita livre para cumprimentos em caso de necessidade, embora tenha garantido que essa necessidade não viesse a existir fixando o olhar em um ponto elevado onde não veria nenhum dos rostos humanos que se aproximavam até que chegasse em casa.
Ele costumava dormir pesado, mas, naquela noite, ouviu os vizinhos se calarem um a um. Até o vigia que anunciava a hora em alguma peça de metal à distância tinha silenciado após bater uma em ponto. Esse deve ter sido o último pensamento de Jonathan antes de finalmente se deixar levar. Porém, não havia dormido por muito tempo quando foi acordado com violência.
“Quem está na porta?” sussurrou a sua mulher deitada no chão ao seu lado.
“Não sei”, respondeu em um cochicho arquejante.
Na segunda vez, a batida foi tão alta e autoritária que poderia ter derrubado a porta velha e oscilante.
“Quem é?” ele enfim perguntou com a voz esturricada e trêmula.
“Ladrão aqui e o pessoal dele”, veio a resposta indiferente.
“Vai, abre essa porta”. E seguiu com a batida mais forte de todas.
Maria foi a primeira a pedir socorro, depois ele e por fim todos os filhos.
“Polícia-aaa! Ladrão-ooo! Vizinho-ooo! Polícia-aaa! Estamos perdidos! Estamos mortos! Vizinhos, vocês estão dormindo? Acordem! Polícia-aaa!”
Os apelos se estenderam por um bom tempo e depois pararam repentinamente. Talvez eles tivessem espantado os ladrões. O silêncio era absoluto. Mas não durou muito.
“Tá acabado?” perguntou a voz lá fora.
“Deixa nós te ajudar também. Vamos lá, pessoal!”
“Polícia-aaa! Ladrão-ooo! Vizinho-ooo! Nós tá perdido-ooo! Polícia-aaa!”
Havia pelo menos mais cinco vozes além da do líder.
Jonathan e a sua família estavam completamente paralisados de pânico. Maria e as crianças soltavam soluços inaudíveis como almas perdidas. Jonathan não parava de gemer.
O silêncio seguido ao apelo dos ladrões vibrava de modo atroz. Jonathan estava quase implorando para que o líder voltasse a falar e acabasse logo com aquilo.
“Amizade,” finalmente falou, “nós tentou chamar eles mas eu acho que eles dormiu... Então o que a gente fazemo agora? Tu quer chamar os soldado? Ou quer que nós chame eles pra tu? Soldado é melhor que polícia. Né não?”
“É mesmo!” responderam os homens. Jonathan achou que havia ainda mais vozes agora do que antes e gemeu profundamente. As suas pernas amoleciam sob seu peso e a sua garganta era uma lixa.
“Amizade, por que você não fala mais? Estou perguntando se tu quer que nós chama os soldado?”
“Não.”
“Tá bom. Agora é hora de falar de negócios. Nós não é ladrão ruim. Nós não gosta de criar problema. O problema acabou. A guerra acabou e toda a katakata aqui dentro. Guerra Civil não tem mais. Agora é a Paz Civil. Né não?”
“É mesmo!” retrucou o terrível coro.
“O que vocês querem de mim? Sou um homem pobre. Tudo o que tinha se foi com essa guerra. Por que estão atrás de mim? Vocês conhecem pessoas que têm dinheiro. Nós...”
“Tá bom! Nós sabe que tu não tem dinheiro a rodo. Mas nós não tem nada. Então vê se abre essa janela e dá cem libras pra nós e a gente vaza. Senão a gente entra aí dentro agora pra te mostrar nosso instrumento aqui...”
Uma saraivada da metralhadora automática ecoou pelo céu. Maria e as crianças voltaram a abrir o berreiro.
“Ah, lá vai a madame chorar de novo. Não precisa disso. Nós já falou que é ladrão de bem. A gente só vai pegar o nosso dinheirinho e dar o fora na boa. Sem chateação. A gente tá chateando?”
“Que nada!” cantou o coro.
“Meus amigos,” Jonathan começou, com a voz rouca. “Entendo o que vocês dizem e agradeço. Se eu tivesse cem libras...”
“Olha aqui, amizade, nós não tá pra brincadeira. Se a gente errar e entrar, você não vai gostar. Então...”
“Pelo Deus que me deu a vida, se vocês entrarem e acharem cem libras, peguem- -nas e atirem em mim, na minha mulher e nos meus filhos. Eu juro por Deus. O único dinheiro que tenho nessa vida são essas vinte libras – o é de graça que me deram hoje...”
“OK. O tempo tá passando. Abre essa janela e traz essas vinte libra. Vamo resolver isso assim.”
Agora um burburinho de objeção se avolumava no coro: “É mentira; tem dinheiro sim... Vamos nós entrar lá dentro e procurar direito... O que é vinte libra?...”
“Cala boca!” retumbou a voz do líder como um tiro solitário no céu, silenciando os murmúrios de uma só vez. “Tu tá aí? Traz rápido o dinheiro!”
“Estou indo”, respondeu Jonathan, atrapalhando-se na escuridão com a chave da pequena caixa de madeira que deixava ao lado da esteira.
*
Ao primeiro sinal da luz, conforme os vizinhos e os demais se juntavam em solidariedade, ele já atava o garrafão de vinte litros ao bagageiro da bicicleta, e a sua mulher, suando à beira do fogo, virava os àkàràs em uma grande tigela de barro com óleo fervendo. No canto, o seu filho mais velho enxaguava os restos do vinho de palma do dia anterior que haviam sobrado em garrafas antigas de cerveja.
“Para mim, não foi nada,” disse aos que lhe prestavam apoio, os olhos na corda que amarrava. “O que é um é de graça? Eu dependia dele na semana passada? Por acaso ele vale mais do que as outras coisas que foram levadas pela guerra? Digo eu, que o é de graça pereça no fogo! Que vá ao mesmo lugar para onde tudo o mais se foi. Deus não conhece enigmas.”
Chinua Achebe (1930-2013) nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Em 2002, foi agraciado com o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

