Os pássaros das suas palavras
Neste conto de Avelino Alves, nos deparamos com um monólogo de uma senhora diante da porta de um asilo
Este conto foi publicado em maio de 2019 na edição de n° 1 da revista USO. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 14 de outubro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
personagem
uma velha elegantemente trajada com os cabelos um pouco desgrenhados
cenário
diante do portão de um asilo, num final de tarde, os acordes do Prelúdio das Bachianas nº 1, de Villa-Lobos, permeiam o texto
ei, alguém pode me tirar daqui? Faz um tempão que já estou neste sol maldito diante deste asilo recheado de solitários e loucos. Solitários e loucos como sempre fui e ninguém jamais percebeu porque eu sempre me esmerei em camisas engomadas, bolos de fubá, jantares com hora marcada. Quando todos dormiam, eu me esmerava em cerzir meias. Ah, mas isso são lembranças que não levam a absolutamente nada. Fazem que não ouvem. Esqueceram-me do lado de fora do asilo. Miseráveis. Abram essa porta, essa maldita porta, respeitem os velhos. Ontem, se não se recordam, vou refrescar a memória: tive de dormir ao relento. De novo. E fez um frio dos diabos na noite passada. Aliás, tem feito muito frio ultimamente. E não digam que aqui do lado de fora tem gente comigo. Estou sozinha. Sozinha como vim ao mundo. E do lado de fora. Se estivesse no lugar deles, acho que faria o mesmo. Velho enche a paciência de qualquer um. Ainda mais uma velha como eu. Chata e cheia de memórias. Ah, se meu marido me pega despenteada. Nunca gostou. Adora meus cabelos. Mesmo agora, prateados. Mas não vem ao caso, diabos. Minha família paga. E muito bem. Ou já não paga? Ei, surdas, se tenho de derreter ao sol até que uma enfermeira idiota e ninfomaníaca se dê ao trabalho... Levem- -me para dentro. Agora! Olha que faço na calçola, hein? Depois não reclamem. Outro dia fiz. Uma disse: a senhora, por que não chamou? Não me fiz de rogada: chamar pra quê, jararaca, claro que chamei. Você que não ouviu. Há algum tempo grito e ninguém me ouve. A bem da verdade gritei a vida inteira mas ninguém me ouviu. Sou das que gritaram para si mesmas, o rosto enterrado nos travesseiros, em gritos surdos. Gritei em sonhos, mordendo o nó dos dedos. Os gritos ecoavam pela casa inteira, mas ninguém ouvia. Sei que o que viam era meu sorriso, minha preocupação com as febres, as menstruações, as notas escolares, meu apreço pelas noras e genros, minha dedicação aos netos. Na noite do primeiro dia da morte de minha mãe, eu estava sentada na cozinha pensando na vida quando meu marido perguntou se não teríamos jantar naquela noite. Fui aprontar o jantar. Alguém aí pode me dizer qual é o luto de uma mulher? Quando eu vivia na... Ora, que bobagem começar assim. Ainda vivo, afinal. Sendo mais precisa: quando estava solta. Não, tampouco posso começar dessa forma. O melhor seria: antes de vir para cá. Afinal, quando vim parar aqui? Que dia é hoje, mês? O ano sei. Mil novecentos e. Não, que esse foi o ano em que me trouxeram. Reuniram-se depois do. Nossa, como faz tempo. Ia dizer que antes de vir para cá eu brigava com todo mundo. Mas não é verdade que ninguém dá a mínima para os velhos? Querem mais é que a gente acorde, tome café, fique na sala (isso se não for dia de limpeza, porque em dia de limpeza a gente ou fica no quintal ou fica no playground do prédio). Depois querem que a gente almoce, durma, acorde, tome chá, assista
tevê (sempre o programa deles), jante cedo e deite cedíssimo. Uma coisa horrorosa. E aí quando o rim pede que a gente urine mais de mil vezes por noite, a filha ou o filho sempre grita do quarto: não deixe a luz do banheiro acesa, não aperte a descarga a essa hora, olha o tapete, o chão foi encerado, não vá escorregar. Bacia de velho quando quebra, adeus! Quando eu ficava na sala, sentada, olhando o nada, muito em silêncio, sempre alguém preocupado chegava perto e dizia: algum problema? Quando eu ia dizer, a pessoa escapava em desculpas do tipo espera aí que já volto. E voltava? Qual o quê. E o jeito de falarem? Além de tipo assim, assassinam a gramática com mós. O pai é mó chato, a vó é mó mala. Eles é que são uns mó merdas, isso sim. E aí, alguém me tira daqui ou não? Meus filhos e genros pagam. E pagam muito bem. Para isso venderam as casas que eu tinha. Para me colocar neste lugar confortável onde eu tenha direito a. A um resto de memória, digamos assim. Engraçado como me lembro dele. Quando você iniciou aquela viagem? Não me disse em sonho que voltaria? Ouvi isso dos seus lábios e eles nunca mentiram para mim. Mas que tola sou. Você sempre volta. Todos os dias volta. Nossos filhos é que não têm prestado muita atenção nas coisas que falo ultimamente. Eles tratam bem você? Em que asilo colocaram você? Eles disseram o nome um dia desses. Mas deixa eu dizer uma coisa: um dos nossos filhos disse, não, filho não, acho que foi aquele genro. Nessas coisas é mais fácil acreditar em um genro. Disse: levamos a velha? O outro – filho, sim, filho – olhou feio: se quer, leve para sua casa. Os dois riram. Um rindo da loucura do outro. Da sugestão e da resposta. Deixe seu pai ouvir, eu disse. Aí ele falou: vou contar isso pro pai e ele vai morrer de rir. Tem uma coisa que preciso dizer a você e nem sei se aí onde você está é igual aqui: amanhecemos orgulhosos porque cada qual conseguiu sobreviver na noite anterior. Uma delas já me contou, sim, porque me tornei confidente das velhotas que vivem aí dentro, comigo. Uma delas me contou que é só apagar a luz que ela se esconde debaixo da cama pela simples e pueril razão de que, se a morte passar, não vai encontrá-la sobre o colchão. E me narra isso ao pé do ouvido. Eu me irrito: por que cochicha no meu ouvido? Ela pisca um olho murcho: pensa que a morte não ouve, é? Claro que ouve, eu digo, a morte ouve de dia e de noite, embora ouça mais à noite e fale mais à noite também. Para que o morto não enlouqueça com o sol, para que o sol não espante o morto. E outra que se arruma toda, todo santo dia, com direito a perfume e tudo mais para esperar os seus? Fica sentada ali, debaixo daquela árvore. Não, não aquela árvore ali, velha. A outra. A nova. Será ipê? Os ipês florescem tão bonito. Ali espera. Como menina obediente. O povo dela nunca vem. Vejo, no entanto, que se assanha, ri, mexe as mãos, penteia com os dedos – quase gravetos – os poucos cabelos e
confidencia. Depois se levanta e passa por mim: gosto tanto deles! Grito que não vi nada e ela gargalha: não vê porque não quer. E continua sua caminhada de quando em vez olhando para trás e acenando para o portão. Doida. Você é doida. Isso sim. Ninguém te visita. Louca. Besta. Visita sim, ela ri. Estão ali sob as árvores, na sombra. Você lança perdigotos em mim quando fala, e isso eu não admito. Ponha uma maldita dentadura para falar comigo, pelo menos. Ela tira a dentadura do bolso da saia florida: desculpe, temos que rir só com os nossos. Não posso esquecer de pedir a essas enfermeiras meliantes que limpem as minhas unhas. Estão crescidas e sujas de terra. Às vezes escorrego, tropeço. Dei pra isso nos últimos anos. E me amparo em gravetos no chão que se enterram em minhas unhas. À noite, dentro desse asilo de insones, a orquestra é formada de tosses, gemidos, espirros e peidos. Minha sorte é que tenho cópias das chaves do portão (tira um rosário do bolso) conseguida a duras penas com uma enfermeira corrupta. Mas, meu Deus do céu, se tenho as chaves por que não entro? Essas chaves só abrem de dentro para fora. De fora para dentro são outras chaves e essas eu não tenho (guarda o rosário). Uma das minhas amigas que vivia aqui. Ela morreu. Foi triste o dia em que ela morreu. Todo mundo chorou. Até eu chorei. Tinha colocado um aparelho de surdez uns dias antes, conseguido à base de um bingo de uma instituição. No dia em que a moça da instituição colocou o aparelho nela, ela deu um berro. Depois ria e batia palmas. Um riso de gengivas cansadas. Aí começou a correr pelo pátio, entre as árvores, gritando bons dias às – que árvores são essas? Mas ela gritava oi árvore, oi pátio, oi céu, oi azul, eu estou ouvindo. De repente, chove. E a velhinha na chuva, batendo palmas e rindo. Todos nós nos protegendo da chuva. Duas enfermeiras tentam pegá-la. Ela não deixa. Dá bailes, bailarina para si e para o mundo. As enfermeiras ofegam. Torcemos por ela. As enfermeiras, enfim, conseguem prendê-la. Ela ri e beija as enfermeiras na face. E gritava: caralho, façam alguma pergunta para mim. Não tínhamos perguntas para ela. À noite, ardia em febre. O velório foi aqui mesmo. Ela não tinha ninguém. Alguém sugeriu que tirássemos o aparelho dela. Impedi. Vai que Deus faça alguma pergunta. E como não sei ainda que pergunta, bem, que pergunta Deus me fará, eu digo que meu nome é. E o do meu marido, o homem que sempre amei é. Os nomes me escapam. Nós, os velhos, só conhecemos o cheiro. Um nome é tão pouco diante do cheiro da pessoa amada. Um dia meu marido me disse. Não, eu disse para ele. Meu Deus, isso seria tão importante para o entendimento da história. Não, me lembro, não dissemos nada. Só nos olhamos. E passamos pelo portão da escola em sentido contrário. Todos os alunos entrando e a gente no sentido contrário. O sentido contrário. Todos os dias das nossas vidas queremos seguir
o sentido contrário das coisas. Mas acho que alguma coisa nos impele e quando tomamos coragem já não dá mais tempo para seguir o sentido contrário porque não é mais nossa juventude que incita ao sentido contrário, mas a nossa amargura. Vamos em sentido contrário, rumo ao holocausto de nossa própria vida. Sim, fomos namorar debaixo da lua. Sentados à beira de uma estrada de terra e pela primeira vez tive coragem de abrir a blusa do meu uniforme escolar e mostrar ao amado meu sutiã. Ele desamarrou e tocou meu pequenino seio. Nossas gargantas secas e os dois corações aos solavancos. Disse te amo. Ele disse te amo. E assim nos amamos até hoje. Sobrevivemos aos dissabores e aos filhos. Só não sei onde ele anda. Em que asilo. Fomos separados. Nunca me escreve ou telefona. Os filhos dizem que ele anda cansado e que está sempre descansando. Nossos anos de casados foram de subtrações onde eu insistia em adicionar. O amor tem essa nojenta lógica matemática que, quer queiramos ou não, não é lógica. Vou contar um pouco do casamento com o único e verdadeiro amor da minha vida. As amoreiras. Penso em fazer geleia com as amoras frescas que. Geleia. Não se lembra? Meu casamento recendia a amoras frescas. Falar de casamento é um engano. O que fica são os cheiros. Cheiros. Tão diferentes dos cheiros que agora sinto. E minhas mãos, antes alvas, agora humilhadas por essas unhas sujas de terra, quebradas. Preciso avisar as enfermeiras para cortarem e limparem as minhas unhas. Pena que não possa ir por minha própria conta e risco para dentro dessas paredes. Ah, (tira o rosário do bolso, mexe nas contas) é que essas chaves imbecis só abrem de dentro para fora. De fora para dentro é outro segredo. Juro que não conhecia fechaduras assim. E agora essas chaves já não servem para nada (guarda). As amoreiras ouviriam se eu estivesse em nossa casa de campo.
Mas aqui, sei lá, eu não posso confiar nesses. São ipês? Não fui eu quem os plantou. As árvores que nos entendem são as que plantamos. Me entendiam o lago, os pássaros, os beirais de minha casa. Não enxergo mais direito. A vida e suas imposturas. E você que cisma em visitar os meus sonhos, meu amor? Acorde e venha me ver, oras bolas. Com você – mesmo aqui fora – eu me sentiria mais tranquila e mais serena e mais segura. Na única vez em que deixaram que eu o visitasse – eu fui? – você sequer me olhou. Mas eu o beijei. Os filhos ficaram constrangidos porque o beijei de língua. Como há muito não fazia. É meu homem, à merda vocês. Senti o seu gosto. O gosto da vida inteira. Um cheiro diferente, é verdade. Mas o gosto da vida inteira. Você não me reconheceu quando fui visitá-lo lá no. Eu disse a uma amiga recentemente num final de tarde no pátio do asilo que aquele senhor sentado perto daquela árvore – ipês – bem, que aquele senhor era meu marido e tinha vindo me visitar. Eu só vejo um jovem, ela disse. Eu olhei fixamente e não
tinha jovem nenhum. Que jovem o quê. É meu marido. O velho. O jovem é o filho?, ela perguntou. Não existe jovem algum debaixo daquela árvore que faz sombra sobre seus cabelos brancos, meu amor. Deixei a louca com suas loucuras e fui pegar nas suas mãos. E a primeira coisa que você me disse foi, não, a segunda coisa que você me disse foi: não sei por que vim. Eu vim? A primeira foi um suspiro. Um suspiro que demos juntos. Como há anos atrás dissemos um ao outro numa rua de terra: eu te amo, eu te amo. Eu jurava que nossos primeiros amores, primeiros medos, primeiros suspiros, primeiros filhos, que tudo só tivesse ficado restrito a umas poucas fotografias que os filhos perderam em algum fundo de gaveta, distraídos que são, como é comum entre os filhos, os netos, os bisnetos. Por que insiste em me dizer que sente saudades se vivemos quase. Bem, se podíamos pegar as mãos um do outro sem medo e pressa? Lembra que dizia que meu sonho era assistir televisão com você no final do dia, quando estivéssemos velhos, e nossas safadezas não passassem de uma beliscada no traseiro, de uma passada de mão e que quando nossos sexos estivessem murchos nós riríamos disso como dois adolescentes? Desculpe, é que dei pra esquecer detalhes ultimamente, dei pra ver tudo escuro. Já pedi uma consulta ao oculista. Catarata, vai saber? E me disseram que não, que meu caso não é uma doença dos olhos, é uma doença da alma. Você que sempre entendeu disso pode me dizer o que é uma doença da alma quando gritamos nossas dores e ninguém já pode nos ouvir, nós mulheres que vemos nossos gritos escorrerem pelos nossos corpos, nos azulejos de nossas cozinhas, nos lençóis alvos que nós mesmas aramos? Por que tenho que esperar perder você para sempre para só então fazer perguntas que já se sabe de antemão que não terão respostas? Afinal de contas, meu amor, por que nunca me visita e por que quando me visita não me permite que eu toque seu corpo como nos velhos tempos? Tem vergonha de minhas unhas sujas? Dos meus cabelos um pouco despenteados? Prometo limpar as unhas se prometer me dar um beijo de boa noite. Prometo amar você e respeitar você para sempre mais uma vez, tantos anos depois dessa jura que sepultou em mim a ardência, o calor e, com o passar dos anos, a indiferença e a amargura quando já era uma
chaga que não tinha mais cura. Sim, o amor é uma grande e maravilhosa flor cheia de viço fadada ao apodrecimento. Ninguém é culpado, ninguém, nem quem colocou essas chaves (pega o rosário), essas chaves em minhas mãos sem que eu pedisse (guarda). É, tem razão, é sobre isso que vim conversar com o senhor. A geriatria, doutor, a geriatria não me interessa. Eu queria, se o doutor me permitir, eu queria falar sobre a eutanásia. Eu já criei meus filhos, se há de me entender. E deixaram o meu amor para sempre dentro de um asilo distante de mim e por isso acho conveniente uma limpeza total nesse palco infestado de gritos que já é tarde demais para que alguém ouça. Somos ocidentais e os velhos atrapalham. Sem hipocrisias, por favor. Não pode, não é? Eu já sabia. Falei por falar. Mas se o senhor me ajudasse. Eu escrevo, se quiser, eu escrevo uma carta ao meu único e verdadeiro amor e esclareço de próprio punho que o pedido foi meu, impossibilitada que sou de sair desse asilo embora – é bom que riamos, doutor, riamos juntos – embora eu tenha que reconhecer que nesse exato momento me encontre fora desses portões que dão para um pátio cheio de árvores que não reconheço o nome. Por que sempre pensamos em ipês, doutor? Eu não sei em que asilo colocaram meu marido e sempre que pergunto aos filhos eles respondem com um sonolento: já falamos tantas vezes, mamãe, por que insiste? Eu anoto, quando eles vão embora, doutor, eu anoto o endereço para fugir e ir ao encontro dele, mas sempre perco o papel. Velho e anotações, doutor, são inimigos íntimos. Sei que seu tempo está acabando e tenho que ser breve. Talvez se eu sair daqui, doutor, talvez se eu voltar para minha casa, eu convença meus filhos a trazerem meu companheiro de volta. A gente pode viver na edícula de algum filho, qual sua opinião, doutor? Juntos. Eles venderiam a nossa casa e nos poriam em alguma edícula, mas juntos. Pedi um dia desses a eles que me levassem de volta. Disseram que não tinham dinheiro para me sustentar. Como assim, e as casinhas, a minha aposentadoria, a aposentadoria do pai de vocês? As casinhas, eles perguntaram, e não pararam de rir – ou chorar, porque naquele momento eu já não entendia nada – até que fossem embora. Bem, eu baixei a cabeça e deitei, doutor, deitei pensando na possibilidade real da eutanásia. Eu tenho culpa de não morrer, doutor, eu tenho culpa de não morrer logo? Desculpe, doutor, estou enterrando as unhas sujas em seu braço. Que deselegância. Mas elas não estavam sujas antes, não é doutor? Diga pra mim, elas não ficaram sujas depois? Doutor, então alguém vem sempre com uma tampa e tudo fica escuro. Por que é sempre assim depois? Ei, alguém pode me tirar daqui? Faz um tempão que já estou nesse sol maldito diante desse asilo recheado de solitários e loucos. Solitários e loucos como sempre fui e ninguém jamais percebeu porque eu sempre me esmerei em camisas engomadas, bolos de fubá, jantares com hora marcada. Quando todos dormiam, eu me esmerava em cerzir meias. Ah, mas isso são lembranças que não levam a absolutamente nada. Fazem que não ouvem. Esqueceram-me do lado de fora do asilo. Miseráveis. Abram essa porta, essa maldita porta, respeitem os velhos. Ontem, se não se recordam, vou refrescar a memória: tive de dormir ao relento. De novo. E fez um frio dos diabos na noite passada. Aliás, tem feito muito frio ultimamente. Se essas chaves (tira o rosário) servissem para alguma coisa. Talvez elas sirvam para. Ei, o senhor quem é?
Vai me levar para dentro do asilo? Não, é a sombra que surge sempre por detrás das árvores e que as minhas amigas insistem em dizer que são apenas as folhas balançando. Não!! Não é possível. Tanto tempo de espera. Vamos para alguma edícula dos nossos filhos? Avisou que viria me buscar a eles? Sempre adoramos surpresas, não é? Desculpe eu estar despenteada desse jeito para recebê-lo. (Tira o rosário e olha pela última vez) Acho que agora eu posso ir sem medo, sem medo que você veja as minhas unhas sujas de terra. Meu amor, por que demorou tanto tempo? (Dá um passo e para).
Avelino Alves é dramaturgo e jornalista. Escreveu 14 peças de teatro, além de quatro outros livros: dois de poesia e dois de contos. O tema central de sua dramaturgia é a incomunicabilidade humana.

