O verão do formoso cavalo branco
Neste conto de William Saroyan, adentramos no cotidiano de uma família de imigrantes armênios no interior dos Estados Unidos e nos tornamos cúmplices de um roubo
Este conto foi publicado em janeiro de 1949 na edição de n° 178 da revista A Cigarra, disponibilizado pela Biblioteca Nacional Digital. A publicação não inclui autoria da tradução. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 9 de setembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Um dia, nos bons tempos em que eu tinha nove anos e o mundo me parecia repleto de tôdas as maravilhas imagináveis e a vida era um sonho deliciosо e cheio de mistérios, meu primo Murad, que a cidade inteira, exceto eu, considerava um louco, veio à minha casa pelas quatro horas da manhã, e bateu na janela de meu quarto para me despertar.
— Aarão! — chamou-me.
Eu saltei da cama e olhei pela janela. O que vi me pareceu irreal. Entretanto não era, pois sendo verão e com a aurora que já despontava, havia luz suficiente para eu saber que não dormia.
Meu primo Murad estava montado num formoso cavalo branco.
Meti a cabeça pela janela, esfregando os olhos.
— Sim — me disse êle em armênio — é um cavalo. Não estás sonhando. Prepara-te, se queres montá-lo.
Eu sabia que meu primo Murad sentia mais alegria de viver que qualquer outro mortal que haja vindo ao mundo por equívoco, mas essa alegria era sempre maior do que eu podia imaginar.
Em primeiro lugar, minhas mais remotas lembranças tém relação com cavalos. E o meu mais antigo desejo foi o de os montar.
Era êste o aspecto mais maravilhoso.
Em segundo lugar, éramos pobres. E isto é que me impedia de acreditar no que via. Éramos pobres. Não tínhamos dinheiro. Tôda a nossa família vivia sob o açoite da miséria. Cada ramo da família Garoghlanian vivia na mais assombrosa e risível pobreza do mundo. Ninguém, nem mesmo os membros mais velhos da família, conseguiam explicar como tínhamos logrado arranjar dinheiro para comprar os alimentos necessários à subsistência. Mas o mais importante era que nós, sem embargo, nos tornáramos famosos pela nossa honestidade. Gozávamos de fama de honradez desde algo assim como onze séculos, quando ainda éramos da família menos capitalizada dentro daquilo que chamávamos mundo. Ficamos, em primeiro lugar, orgulhosos; em segundo, honrados; logo, distinguíamos o bem do mal. Nenhum de nós tinha se aproveitado de outro e nunca havia roubado.
Por conseguinte, ainda que pudesse ver o cavalo tão magnífico; ainda que pudesse sentir com agrado o seu cheiro; ainda que escutasse a sua respiração tão incitante; —não me era possível acreditar, nem em sonho nem acordado, que o cavalo tinha algo que ver com Murad, nem comigo, nem com ninguém de minha família, porque eu sabia que meu primo não podia tê-lo comprado, e se não podia tê-lo comprado, tê-lo-ia roubado e eu não admitia que êle houvesse feito tal coisa. Nenhum membro da família Garoghlanian podia ser ladrão. Olhei primeiro para meu primo e depois para o cavalo.
Havia em ambos uma espécie de piedosa tranquilidade e um ar picaresco que por um lado me agradava e por outro me assustava.
— Onde roubaste êste cavalo, Murad? — perguntei.
— Salta a janela — respondeu ele — se queres montá-lo.
Era verdade, então, êle roubara o cavalo. Não havia dúvida. E viera convidar-me, eu sempre o quisera.
Bem. Pareceu-me que roubar um cavalo para montar um pouco não era o mesmo que roubar dinheiro. Até onde eu sabia, não era roubo. Se você fôr tão fanático por cavalos como éramos eu e meu primo Murad, há de convir que não era roubo. E não o seria enquanto nós não o vendêssemos, coisa em que por certo nunca pensaríamos.
— Espera um pouco, enquanto me visto — disse eu.
— Está bem. Apressa-te, porém — respondeu êle.
— Vestir-me-ei rapidamente.
Saltei ao pátio pela janela e logo subi para a garupa de meu primo Murad.
Nessa época, morávamos no extremo da cidade, na Avenida Walnut. Por trás de nossa casa se estendia o campo: vinhas, hortas, águas de rega e veredas rurais.
Em menos de três minutos, estávamos na Avenida Oliva e ali o cavalo começou a trotar. O ar era fresco e delicioso. O contato do cavalo era maravilhoso. Meu primo Murad, conhecido como um dos membros mais bizarros de nossa família, começou a cantar. Quero dizer: a berrar.
Tôda família tem uma veia de loucura e meu primo Murad era considerado o legítimo descendente dessa linha anormal. Antes dêle, já a exibia Khosrove, um homem enorme, com uma grande cabeça coberta de cabelos negros e os maiores bigodes que existiam em todo o vale de São Joaquim. Era um sujeito de temperamento extraordinariamente irritável e impaciente, que interrompia quem quer que estivesse falando com o seguinte estribilho: Não há nenhum perigo, não se preocupe.
Dizia sempre isto, ainda quando não fosse oportuno. Certa vez seu filho Arak foi correndo a barbearia, onde êle estava aparando os bigodes, e lhe disse que a casa dêles estava pegando fogo. Esse homem Khosrove ergueu-se da cadeira e respondeu: Não há nenhum perigo, não se preocupe. O barbeiro observou que o menino dizia que a casa estava se incendiando. Khosrove respondeu: Já disse que não há nenhum perigo.
Meu primo Murad era considerado descendente natural desse homem, ainda que seu pai fosse Zorab, que era apenas um individuo prático. Assim são as coisas em nossa tribo. Um homem pode ser o pai de seu filho quanto ao físico, mas não quer isso dizer que o seja quanto ao espírito. A distribuição das diversas categorias de espíritos foi desde o começo caprichosa e errante.
Cavalgávamos enquanto meu primo cantava. Ainda nos encontrávamos no velho campo que, segundo diziam alguns vizinhos, nos pertencia. Deixamos correr o cavalo à sua inteira vontade.
Por fim, meu primo Murad me disse para descer, porque desejava cavalgar só.
— Deixar-me-ás montar também sozinho? — perguntei.
— Isto depende do cavalo — disse meu primo Murad. — Desce!
— O cavalo me deixará montar — repliquei.
— Veremos — disse êle. — Não esqueças que eu tenho meus segrêdos com os cavalos.
— Bem — argumentei — qualquer segrêdo que tenhas também o conheço eu.
— Em benefício de tua saude, concordo. Mas desce!
— Está bem — respondi. — Mas lembra que terás que me deixar cavalgar só.
Desci e meu primo Murad golpeou com os calcanhares as ilhargas do cavalo e gritou: — Vazire, corre! O cavalo impulsionou-se nas patas traseiras e partia numa carreira furiosa e desenfreada. Foi o mais belo espetáculo que eu já vi. Meu primo conduziu o cavalo por um pasto de potros até um canal de irrigação, saltou o obstáculo de uma cerca e, cinco minutos depois, voltou banhado de suor.
O sol estava saindo.
— Agora toca a minha vez — disse-lhe.
— Aí o tens — respondeu êle, entregando-me o cavalo.
Saltei ao lombo do animal e, por um momento, experimentei o mais tremendo dos mêdos. O cavalo não se moveu.
— Golpeia-o nos músculos — disse meu primo. — Que esperas? Teremos que levar o cavalo de volta, antes que o pessoal desperte.
Cravei os calcanhares nos vazios do cavalo. Êle soprou mais uma vez. E logo se pôs a correr. Eu não sabia o que fazer. Em vez de correr pelo pasto de potros até o canal de irrigação, o cavalo tomou outro caminho, dirigindo-se para a vinha de DiKran Halabian, onde começou a saltar por cima das parreiras. Conseguiu saltar sete parreiras antes que eu caísse. Depois fugiu.
Meu primo Murad chegou correndo pelo caminho.
— Não é contigo que me preocupo — gritou. — Temos que alcançar o cavalo. Vai por êste caminho, que eu vou por aquêle. Se tu o alcançares primeiro, trata-o com carinho. Eu estarei por perto.
Segui pelo caminho indicado e meu primo cruzou o pasto de potros em direção do canal de irrigação. Gastou meia hora em encontrar e trazer o cavalo.
— Bem — disse. — Sobe para a garupa. Todo mundo já acordou.
— Que faremos? — perguntei.
— Bem — replicou ele. — Ou o devolvemos agora ou o escondemos até amanhã pela manhã.
Ele não parecia de maneira alguma preocupado. Eu me dei conta de que êle pelo menos agora não o devolveria, escondendo-o.
— Onde poderemos ocultá-lo? — perguntei.
— Conheço um bom lugar — respondeu êle.
— Quanto tempo faz que roubaste o cavalo? — indaguei, desconfiando que êle fazia aquelas cavalgadas matinais há muitos dias e que só naquele se lembrara de me vir buscar porque sabia que me agradaria bastante.
— Quem falou em roubar cavalo? — disse ele.
— Bem. De qualquer maneira, desde quando estás cavalgando todas as manhãs — respondi.
— Só desde hoje — disse-me.
— Falas a verdade? — perguntei.
— Certamente que não — respondeu-me. — Mas se nos chegarem a surpreender, é isto justamente o que deves ocultar.
— Não quero que sejamos mentirosos — disse-lhe.
Ele levou silenciosamente o cavalo ao estábulo de uma vinha abandonada, que em outro tempo tinha sido o orgulho de um agricultor chamado Fetvajian. Havia restos de aveia e alfafa sêca no estábulo.
Dirigimo-nos para casa.
— Não é fácil — disse-me — conseguir que um cavalo se porte tão bem. A princípio, quis empinar, mas, como te disse, tenho meus segredos com os cavalos. Obrigo o animal a fazer aquilo que eu quero. Os cavalos me entendem.
— Como o fazes? — perguntei.
— Eu tenho um acôrdo com os cavalos.
— Sim, mas que tipo de acôrdo? — insisti.
— Um simples e honrado acôrdo — respondeu êle.
— Bem — disse-lhe. — A mim me agradaria muito chegar a um entendimento igual com os cavalos.
— És ainda muito pequeno — observou ele. — Quando tiveres treze anos, poderás fazê-lo.
Fui para casa e comi um excelente almôço.
À tarde, meu tio Khosrove veio à nossa casa em busca de café e cigarros.
Sentou-se na sala, sorvendo a fumaça e recordando o velho campo.
De repente, chegou outra visita, um granjeiro chamado John Byro, um assírio, que de tão solitário chegou a aprender a falar arménio. Minha mãe trouxe café e fumo para o retraído visitante e êle enrolou um cigarro, começou a beber o café e a fumar.
Finalmente, suspirou com tristeza e disse: — Ainda não pude encontrar meu cavalo branco que me roubaram o mês passado. Não posso compreender.
Meu tio Khosrove irritou-se muito e exclamou: — Não ha perigo algum. Que significa a perda de um cavalo? Não perdemos porventura todos nós a nossa pátria? Como é possível que você se lastime por causa de um cavalo?
— Isto é muito simples para você, que vive na cidade — disse John Byro. - Mas minha carroça? De que servirá minha carroça sem cavalo?
— Não se preocupe — grunhiu meu tio Khosrove.
— Tive que andar dez milhas para chegar até aqui — continuou John Byro.
— Para que tens pernas? — replicou meu tio Khosrove.
— A perna esquerda me dói — disse o granjeiro.
— Não se preocupe — vociferou meu tio Khosrove,
— O cavalo me custou sessenta dólares.
— Eu cuspo no dinheiro — respondeu meu tio.
Levantou-se e saiu da sala, em grandes passadas, fechando a porta com ruido.
Minha mãe explicou: — Tem bom coração e é sensível, sente uma grande nostalgia e, além disso, é um homem tão grande...
O agricultor se foi e eu corri à casa de meu primo Murad.
Estava sentado debaixo de um pessegueiro, tratando a asinha quebrada de um pintassilgo que não podia voar. Estava conversando com a avezinha.
— Que há? — perguntou-me.
— John Byro, o agricultor, visitou-nos — respondi. — Quer que lhe devolvam seu cavalo. E vais me prometer que não o restituirás até que eu aprenda e montar.
— Levarás um ano para aprender — disse meu primo.
— Ficaremos com o cavalo durante um ano — insisti.
Meu primo Murad levantou-se de um salto.
— Como? ー gritou. — Ousas convidar um membro da família Garoghlanian para roubar? O cavalo deve voltar a seu dono.
— Quando? — perguntei.
— Dentro de seis meses, no máximo.
Lançou o pássaro ao ar, o qual, depois de alguns esforços, cruzou o espaço.
Durante duas semanas, tôdas as manhãs, Murad e eu retirávamos o cavalo do estábulo onde o escondíamos e, cada vez que me tocava montá-lo só, êle saltava sôbre as parreiras, arrojava-me ao solo e fugia.
Sem embargo, não perdia as esperanças de aprender a montar tão bem como meu primo.
Uma manhã, de volta à vinha abandonada de Fetvajian, encontramos o granjeiro John Byro, que ia para a cidade.
— Deixa que eu lhe falo — disse meu primo Murad. — Sei lidar com os agricultores
— Bom dia, John Byro — disse meu primo ao granjeiro.
O homem observou ansiosamente o cavalo.
— Bom dia, filhos de meus amigos — respondeu. — Como se chama êste cavalo?
— Mi corazon — respondeu meu primo Murad, em armênio.
— Formoso nome para um cavalo - disse o homem. — Seria capaz de jurar que era o cavalo que me roubaram há várias semanas. Poderão permitir que eu examine os dentes dêle?
— Naturalmente — disse Murad.
O camponês examinou a boca do cavalo.
— Dente por dente — disse. — Juraria que era meu cavalo se não conhecesse teus pais. Conheço a fama de honradez de que desfruta toda a família. Entretanto, êste cavalo e gêmeo do meu. Um homem suspicaz daria mais preferência ao testemunho dos seus olhos que ao do seu coração.
— Adeus, John Byro — respondeu meu primo Murad.
Muito cedo, na manhã seguinte, levamos o cavalo ao estábulo de John Byro e ali o deixamos. Os cães nos seguiram sem fazer um só ruído.
— Os cães... — sussurrei a meu primo. — Pensei que ladrariam.
— Ladrariam a qualquer outra pessoa — disse êle. — Mas tenho a minha habilidade em lidar com os cães.
Meu primo Murad envolveu num abraço o pescoço do animal, esfregou seu nariz nas ventas dêle, acariciou-o e, em seguida, partiu.
Nessa tarde, John Byro veio a nossa casa em sua carroça e mostrou à minha mãe o cavalo que havia sido roubado e restituído.
— Não sei o que pensar — disse. — O cavalo está mais forte que nunca e mais dócil também. Dou graças a Deus.
Meu tio Khosrove, que estava na sala, aborreceu-se e exclamou: — Silêncio, homem. Devolveram-te o cavalo. Pois não dou importância a isso.
O verão do formoso cavalo branco foi um dos mais ditosos que conheci, ainda que não tenha aprendido a montar.
William Saroyan (1908-1981) foi um escritor e dramaturgo armênio-americano conhecido por celebrar a vida e a cultura imigrante na Califórnia, especialmente a Armênia, durante a Grande Depressão. Nascido em Fresno, Califórnia, Saroyan alcançou fama internacional com contos e peças de teatro como My name is Aram e The time of your life, que lhe rendeu um Pulitzer recusado.

