O salgueiro
Neste conto de Rafael Ginane Bezerra, acompanhamos a vida da velha Schumaker após a morte do marido, agarrada à memória, à solidão e ao salgueiro da Santa Rosa
Este conto foi publicado em julho de 2024 na primeira edição da Revista Julia, da editora Arte & Letra. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 1 de julho de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
O velho Schumaker morreu primeiro, depois foram morrendo as galinhas que a velha Schumaker criava desde que ficou viúva e depois morreu o filho dos Rodrigues. Mas para contar esta história ainda restam a própria velha Schumaker, o velho e a velha Rodrigues e a árvore, um salgueiro com os galhos retorcidos e caídos sob o peso do tempo, cortando o horizonte entre a varanda e o rio. Pelo menos é assim que a velha Schumaker o vê da janela do seu quarto e é assim que vai continuar vendo até o dia em que decida morrer.
Na noite em que os Rodrigues arrumaram a cama para a velha Schumaker, fazia três anos que ela tinha ficado viúva e pelo menos seis que o velho Schumaker tinha comprado a Santa Rosa, um lugar onde não planejava viver, mas apenas passar os seus últimos dias. Ele comprou a Santa Rosa, o roçado, as cabeças de gado e o ranchinho de madeira que era arrendado para os Rodrigues desde uma época perdida na memória. Mas depois não chegou a conhecer os limites da própria terra, mesmo que modestos, pois mal teve tempo para se sentar na varanda ao lado da esposa e contemplar o salgueiro, a curva do rio e o morro que ficava na margem oposta. Ele fez isso poucas vezes, talvez não mais do que quatro ou cinco, porque logo em seguida apareceram as dores de estômago que não o deixavam em paz. Ele não conseguia caminhar ou ficar sentado, então passava o dia inteiro na cama, deitado de barriga para baixo. De modo que a única parte da Santa Rosa que ele de fato conheceu, o pedaço de terreno lindeiro com a varanda, foi o lugar onde ele se encantou com o salgueiro solitário. Ele deve ter olhado para aquela árvore nos dias em que esteve ao lado da velha Schumaker, lembrado dela durante o tempo de sofrimento e depois reconstruído mentalmente as ranhuras da cortiça e o balanço fantasmagórico dos galhos contra o pôr do sol.
A doença do velho Schumaker ainda estava no início quando a esposa começou a ter contato com os Rodrigues. Primeiro apareceu a velha Rodrigues para trabalhar como empregada e mal o patrão se acostumou com a sua compressa morna, o chá de espinheira-santa e o suco de batata, apareceram o pai e o filho. Na verdade, a velha Schumaker os via pouco, ela via principalmente a outra velha que de hora em hora entrava no quarto para trocar as compressas e servir uma tigela de canja. Mesmo assim, ela escutava as vozes do pai e do filho que conversavam do lado de fora sobre as coisas que podiam fazer na Santa Rosa. Ela escutava as vozes e as risadas petulantes e comentava com o marido que era necessário manter aquele tipo de gente por perto.
E de certa maneira ela tinha razão, porque foi justamente o filho dos Rodrigues que encilhou o cavalo e viajou dez quilômetros debaixo de chuva para buscar o doutor Bertazzo no dia em que as compressas mornas pararam de fazer efeito. O cirurgião italiano chegou fazendo sinais de contrariedade com a cabeça e continuou contrariado quando colocou um frasco de comprimidos sobre a mesa de cabeceira. Depois, deu umas palmadas de consolo no ombro da velha Schumaker, deixou claro que não pretendia mentir e recusou o dinheiro que ela tirou da gaveta da cozinha, dizendo que sempre teve curiosidade para conhecer aquelas bandas da Santa Rosa.
Os comprimidos do doutor Bertazzo duraram quase duas semanas, mas antes disso já tinham parado de aliviar as dores que agora vinham seguidas por vômitos, porque o estômago do velho Schumaker não aguentava mais os chás ou os sucos e nem mesmo as compressas mornas e a mão da velha Schumaker sobre a sua pele. Na noite em que os comprimidos acabaram, as dores foram tão intensas e os gritos tão altos que os animais ficaram agitados e velha Rodrigues correu para oferecer ajuda. A velha Schumaker queria que chamassem o doutor Bertazzo, mas o próprio moribundo disse que era melhor esperar pelo amanhecer. Então a velha Schumaker despachou a outra velha, exigiu que seu filho acordasse cedo para encilhar o cavalo e se sentou em uma poltrona para velar o marido agonizante. Pode ser que naquele momento ela tenha cedido ao cansaço, também pode ser que a tristeza tenha transbordado, mas o fato é que ela adormeceu. Quando despertou, o marido não estava mais na cama e da janela ela viu o seu corpo pendurado em um dos galhos do salgueiro.
Isso aconteceu no quarto ano depois que os Schumaker tinham se instalado na Santa Rosa. No quinto ano, os Rodrigues já viviam na casa grande e a velha Schumaker se desdobrava para evitar que a empregada matasse todas as suas galinhas, dividindo o tempo entre o galinheiro e a sepultura do marido, erguida debaixo do galho que tinha sustentado o peso do seu corpo morto. Quando o dia estava terminando, ela se sentava na varanda, agitava a mão reumática e enchia o copo com o steinhaeger que os Rodrigues não deixavam faltar. Então ela olhava para o salgueiro e para o rio e para o morro, esperando que a noite e o sono fechassem seus olhos.
Nos anos seguintes, os Rodrigues foram tomando conta de praticamente tudo. Enquanto a velha zelava pela casa, o pai e o filho corriam a Santa Rosa de um extremo ao outro. Eles consertavam cercas, tangiam as cabeças de gado, cuidavam do roçado e usavam uma carroça para carregar os mantimentos e buscar o steinhaeger na destilaria do velho Gunter. Eram eles que buscavam a bebida, mas era a velha Rodrigues que servia a mistura de steinhaeger com mel e limão até a dona da casa dizer que aquele capricho era desnecessário e que ela preferia ficar com um copo e uma garrafa.
Um dia ela bebeu tanto que não teve forças para se levantar, então deixou que a velha Rodrigues a arrastasse, tirasse a sua roupa e a colocasse na cama. Existem relatos desencontrados esse respeito, mas ao que tudo indica foi nessa noite que o filho dos Rodrigues entrou no quarto da velha e se deitou ao lado dela nos lençóis recém-trocados. No dia seguinte, a velha Schumaker só se levantou quando a tarde já avançava e pela primeira vez deixou de visitar a sepultura, limitando-se a ficar sentada na janela do quarto. À noite ela voltou a ficar embriagada e o filho dos Rodrigues a visitou novamente, porque depois disso ela desistiu de caminhar até o salgueiro que continuava cortando o horizonte entre a varanda e o rio.
De resto, poucas coisas mudaram, a não ser o fato de que na mesma noite em que o filho dos Rodrigues se deitou com a velha Schumaker, a sua mãe foi até o ranchinho, tirou de lá os poucos pertences que ainda não tinham sido levados para a casa grande, fechou a tramela e ateou fogo. E logo em seguida, com risadas petulantes, os Rodrigues sacrificaram todas as galinhas que restavam e começaram a erguer um novo ranchinho enquanto olhavam para a janela do quarto da velha Schumaker.
A vida teria continuado assim e os Rodrigues teriam executado o plano que tinham em mente, não fosse um entrevero de paixão louca, de punhal e de vingança. Depois de um baile, o filho dos Rodrigues chegou na Santa Rosa com um talho no ventre, como se nunca tivesse escutado a mãe dizer que era melhor não se meter com filha de caboclo, que para isso ela tinha arranjado a velha Schumaker. A velha Rodrigues disse isso, depois repetiu com desespero durante o velório e continuou repetindo no dia seguinte, quando o caixão foi levado para a sepultura que tinha sido aberta debaixo do salgueiro. E teria repetido outras mil vezes, não fosse a aparição súbita da velha Schumaker empunhando um Mauser. Ela saiu da cova recém-aberta, acionou o ferrolho e gritou “aqui vocês não entram, bugrada de merda”. E como o cortejo hesitou, ela abriu fogo até todos se dispersarem, restando apenas os velhos Rodrigues em uma fuga miserável para levar o caixão do filho até a carroça.
Não sei dizer exatamente quando essa história aconteceu, mas sei que poucos anos depois os velhos Rodrigues voltaram para o ranchinho da Santa Rosa porque não tinham para onde ir. Hoje eles estão ainda mais velhos e muita gente continua vendo uma mulher que perambula pela casa grande, que grita disparates e que carrega um rifle nas mãos. Dizem que ela não dorme. Sua cabeça aparece na janela da casa grande durante as madrugadas e seus olhos fitam o vulto do salgueiro em meio à escuridão.
Rafael Ginane Bezerra é sociólogo e professor na Universidade Federal do Paraná, atuando na área de Didática da leitura e da escrita. Coordena oficinas de criação literária e traduziu obras de Maria Teresa Andruetto, Lilia Lardone, Samanta Schweblin e Federico Falco.

