O forasteiro
Neste conto de H. P. Lovecraft, acompanhamos um recluso vivendo em um castelo por anos, sem contato com o exterior, a luz do dia e a sua própria aparência
Este conto foi publicado em fevereiro de 2025 na sexta edição do Jornal RelevO com tradução de Demian Gonçalves Silva. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 21 de outubro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Infeliz é aquele a quem as memórias de infância trazem apenas medo e abatimento. Desventurado quem evoca horas solitárias, passadas em vastos e sombrios aposentos com tapeçarias pardas e enlouquecedoras fileiras de livros antigos, ou vigílias atemorizadas em crepusculares bosques de árvores grotescas, imensas e envoltas em trepadeiras, que agitam silenciosamente nas alturas os seus galhos retorcidos. Tal é a sorte que os deuses me deram a mim — a mim, o aturdido, o decepcionado; a mim, o infrutífero, o destroçado. E, contudo, sinto-me estranhamente satisfeito e agarro-me com desespero a essas secas memórias quando, por instantes, a minha mente ameaça ir mais além — ao outro.
Nada sei de onde nasci, exceto que o castelo era infinitamente velho e infinitamente horrível; repleto de passagens sombrias e de tetos elevados onde os olhos só podiam divisar sombras e teias de aranha. As pedras nos corredores esboroados pareciam sempre medonhamente úmidas, e havia por toda parte um cheiro amaldiçoado, como que dos cadáveres amontoados de gerações defuntas. Nunca havia luz, de modo que eu por vezes acendia velas e as contemplava fixamente para me aliviar; tampouco havia sol do lado de fora, pois as árvores terríveis cresciam até muito acima da mais elevada torre acessível. Havia uma única torre negra que ultrapassava as copas das árvores em direção ao desconhecido espaço exterior, mas estava parcialmente arruinada e a ela não se poderia ascender salvo por uma quase impossível escalada do imenso muro, pedra por pedra.
Devo ter vivido anos nesse lugar, mas não sou capaz de mensurar o tempo. Algumas criaturas devem ter provido às minhas necessidades, todavia não me posso recordar de pessoa alguma além de mim mesmo; nem de outras coisas viventes além dos silenciosos ratos, morcegos e aranhas. Quem quer que tenha cuidado de mim, creio que devesse ser espantosamente velho, pois a minha primeira concepção de uma pessoa viva foi a de algo burlescamente semelhante a mim, porém deformado, encarquilhado e decadente, tal como o próprio castelo. Para mim não havia nada de grotesco nos ossos e esqueletos que se derramavam por criptas de pedra nas profundezas dos alicerces. Eu fantasiosamente associava essas coisas aos eventos do dia-a-dia, reputando-as mais naturais do que as coloridas imagens de seres-vivos que encontrava em muitos livros bolorentos. Nesses livros aprendi tudo o que sei. Nenhum professor me estimulou ou me orientou, e não me lembro de ter escutado uma única voz humana ao longo de todos esses anos — nem sequer a minha própria; pois, embora tenha lido acerca da palavra falada, nunca cogitei tentar falar em voz alta. A minha aparência era matéria igualmente incogitada, pois não havia espelhos no castelo, e eu limitava-me, por instinto, a considerar-me assemelhado às jovens figuras que via desenhadas ou pintadas nos livros. Sentia-me consciente da minha juventude porque tinha pouquíssimas recordações.
Lá fora, do outro lado do fosso pútrido e sob as sombrias árvores silentes, muitas vezes me deitava e sonhava horas a fio com o que lia nos livros; e imaginava-me ansiadamente no meio de alegres multidões, no mundo ensolarado para além daquela floresta sem fim. Certa feita tentei escapar da floresta, mas, à medida que me distanciava do castelo, a penumbra adensava-se e o ar impregnava-se de um medo ameaçador; de modo que corri de volta freneticamente, a fim de não me perder em um labirinto de silêncio noturno.
E assim, através de crepúsculos intermináveis, eu sonhava e esperava, embora não soubesse o quê. A dada altura, no meio da solidão tenebrosa, o meu anseio por luz fez-se tão desesperado que já não me dava descanso, e ergui as mãos suplicantes para a torre negra e arruinada que, acima da floresta, penetrava o desconhecido espaço exterior. E, por fim, resolvi-me a escalar aquela torre, mesmo sob o risco de sofrer uma queda; antes ter um breve vislumbre do céu e perecer, a passar a vida sem ter nunca contemplado o dia.
Sob o úmido crepúsculo, escalei os velhos e desgastados degraus de pedra, até que atingi a altura onde se interrompiam, e dali passei a agarrar-me temerariamente a pequenos pontos de apoio que conduziam para cima. Pavoroso e terrível era aquele rochoso cilindro inerte em que não havia degraus; negro, arruinado e abandonado, e sinistro à conta dos morcegos assustados cujas asas não produziam som algum. Ainda mais pavoroso e terrível, no entanto, era a morosidade do meu avanço; pois, por mais que eu escalasse, a escuridão acima da minha cabeça não se atenuava nem um pouco, e um frio novo, como que de um assombrado e venerando bolor, tomou-me de assalto. Tiritando, eu perguntava-me por que razão não alcançava a luz, e teria olhado para baixo se tivesse a coragem para tanto. Conjecturava que a noite caíra subitamente sobre mim e, em vão, tateava com a mão livre à procura de uma fresta de janela, da qual pudesse espiar para fora e para cima e estimar a altura a que havia chegado.
Repentinamente, após um infinito e assustador escalar às cegas naquele terrificante precipício côncavo, senti a minha cabeça tocar em alguma coisa sólida, e soube que devia ter atingido o teto ou, pelo menos, alguma espécie de pavimento. Na penumbra, ergui a mão livre e testei a barreira, constatando
que era de pedra e inamovível. Logo experimentei um mortífero rodeio à torre, agarrando-me a quaisquer arrimos que a parede lodacenta pudesse oferecer, até que, finalmente, a minha mão perscrutadora percebeu que a barreira cedia, e dirigi-me novamente para cima, empurrando com a cabeça a laje ou porta enquanto usava ambas as mãos na minha amedrontada subida. Nenhuma luz se revelou lá em cima, e, à medida que as minhas mãos iam mais para o alto, soube que a minha escalada havia por ora findado; pois a laje constituía o alçapão de uma superfície horizontal de pedra, com maior circunferência que a parte inferior da torre — sem dúvida o piso de uma elevada e espaçosa câmara de observação. Arrastei-me cuidadosamente pela abertura, tentando evitar que a pesada laje retrocedesse à sua primeira posição; contudo, falhei nessa tentativa. Enquanto jazia exausto sobre o piso de pedra, ouvi os lúgubres ecos da sua caída — mas tinha a esperança de poder reerguê-la quando fosse preciso.
Julgando que me encontrava agora a uma altura prodigiosa, muito acima dos amaldiçoados galhos do bosque, levantei-me do chão e pus-me a tentear em redor à procura de uma janela, da qual pudesse pela primeira vez observar o céu — e a lua e as estrelas que conhecia dos livros. De todos os lados, porém, só me vinha o desapontamento; pois tudo quanto encontrava eram vastas prateleiras de mármore, com odiosas caixas oblongas de tamanho desconcertante. Mais e mais eu me punha a cismar, e indagava-me dos segredos antiquíssimos que poderiam residir naquele elevado aposento, apartado havia tantos éons do castelo abaixo. Então, inesperadamente, as minhas mãos depararam uma entrada sobre a qual assomava um portal de pedra, rugoso à conta de estranhos entalhes. Ao forçar a porta, encontrei-a trancada; num supremo assomo de energia, porém, sobrepujei todos os obstáculos e escancarei-a para dentro. Ao fazê-lo, veio-me o êxtase mais puro que jamais experimentei; através de uma ornamentada grade de ferro, no extremo de uma breve escadaria de pedra que subia da recém-descoberta entrada, resplandecia serenamente a radiante lua cheia que eu nunca antes contemplara — a não ser em sonhos e em vagas visões que não me atreveria a chamar de memórias.
Imaginando agora que havia atingido o próprio cimo do castelo, comecei a transpor rapidamente os poucos degraus para além da porta; todavia o súbito enublamento da lua me fez tropeçar, e pus-me a sondar o caminho mais lentamente por entre a penumbra. Ainda estava muito escuro quando alcancei a grade — que forcei com cuidado e achei destrancada, mas que não abri por medo de me despenhar daquela estupenda altitude. E então apareceu a lua.
O mais demoníaco de todos os abalos é o do inesperado abissal e do grotesco inacreditável. Nada do que eu antes experimentara se poderia comparar, em terror, ao que eu agora via, às bizarras maravilhas que aquela visão implicava. Esta era, em si mesma, tão simples como estupefaciente, pois consistia tão-somente nisto: em vez de um vertiginoso panorama de copas de árvores visto de uma altíssima elevação, estendia-se em redor de mim, ao mesmo nível da grade, nada mais nada menos do que a terra firme, adornada e diversificada por lajes e colunas de mármore, e ensombrada por uma velha igreja de pedra cujo campanário arruinado luzia espectralmente ao luar.
Semiconsciente, abri a grade e avancei cambaleando pela senda de cascalhos brancos que se estendia em duas direções. A minha mente, por maior que fosse o atordoamento e o caos em que se encontrava, persistia ainda no seu desesperado anseio por luz; e nem mesmo a fantástica surpresa que sobreviera se poderia interpor no meu caminho. Não sabia e não me importava se a minha experiência era loucura, sonho ou magia; estava determinado a banhar os olhos em luminosidade e contentamento, qualquer que fosse o preço a pagar. Não sabia quem ou que coisa era eu, nem oque poderiam ser os arredores que me cercavam; todavia, enquanto eu avançava aos tropeços, veio-me à consciência uma temível memória latente, e com ela o meu avanço tornou-se menos fortuito. Passando por sob um arco, abandonei aquela região de lajes e colunas e pus-me a vaguear pelo campo aberto; às vezes seguia pela estrada visível, outras vezes a abandonava e, curioso, percorria prados em que apenas ocasionais ruínas indicavam a antiga presença de uma estrada esquecida. Em dado momento, atravessei a nado um célere rio em que uma esboroada e musgosa alvenaria dava testemunho de uma ponte havia muito desaparecida.
Mais de duas horas devem ter-se passado antes que eu chegasse ao que parecia ser o meu destino, um venerável castelo coberto de heras em um parque de espesso arvoredo; para mim loucamente familiar e, contudo, cheio de uma desconcertante estranheza. Vi que o fosso se achava coberto, e que algumas das já conhecidas torres haviam sido demolidas; ao mesmo tempo, existiam alas novas para confundir o espectador. O que observei com maior interesse e deleitação, porém, foram as janelas abertas — as quais, maravilhosamente resplandecentes de luz, irradiavam os rumores da mais jubilosa folia. Avançando até uma delas, olhei para dentro e avistei um grupo de pessoas com vestimentas deveras extravagantes, que se divertiam e falavam animadamente entre si. Ao que se presume, eu nunca antes ouvira a voz humana, e só muito vagamente podia adivinhar o que se dizia. Alguns daqueles rostos, nas expressões que manifestavam, pareciam despertar reminiscências incrivelmente remotas; outros eram completamente alienígenas.
E, agora, dava eu um passo por sobre a janela baixa, adentrando no recinto brilhantemente iluminado — e era um passo que dava, do meu único e brilhante momento de esperança, para o meu mais negro convulsionar em desespero e compreensão. O pesadelo não tardou a surgir; pois, enquanto eu entrava, sucedeu de imediato uma das demonstrações mais terríveis que eu poderia conceber. Mal transpus o parapeito, um medo súbito e inesperado, com uma violência hedionda, irrompeu sobre o agrupamento contorcendo todas as faces e despertando gritos horrendos em quase todas as gargantas. A fuga foi generalizada e, no meio daquele alarido e pânico, vários tombavam desmaiados e eram levados de arrasto pelos desvairados companheiros. Muitos cobriam os olhos com as mãos e mergulhavam cega e desajeitadamente na sua desabalada evasão, derrubando móveis e esbarrando contra as paredes antes que lograssem alcançar uma das diversas portas.
Os gritos eram perturbadores; e, enquanto eu permanecia de pé no brilhante aposento, só e aturdido, ouvindo ainda os ecos evanescentes, tremi ao pensamento de que, próximo a mim, algo invisível poderia estar à espreita. A sala, sob uma inspeção casual, parecia deserta; quando me movi em direção a uma das alcovas, porém, pensei detectar ali uma presença — uma sugestão de movimento para além da porta de arco dourado que levava a um outro e similar aposento. À medida que me aproximava do arco, comecei a perceber mais claramente a presença; e então, com o primeiro e último som que alguma vez emiti — uma horripilante ululação que me repugnou quase tanto como o nocivo objeto que a provocara — contemplei na sua inteireza, na sua assustadora vividez, a inconcebível, a indescritível e inominável monstruosidade que, pela sua simples aparição, havia transformado um grupo de alegres convivas em uma alucinada horda de fugitivos.
Não posso sequer sugerir aproximadamente como era ela, pois era um amontoado de tudo quanto há de imundo, nefasto, indesejável, anormal e ominoso. Era a sombra fantasmagórica da decadência, da antiguidade e da ruinaria; o espectro pútrido e gotejante de uma perniciosa revelação; o terrível desnudamento daquilo que a terra misericordiosa deveria sempre ocultar. Sabe Deus que ela não era deste mundo — ou não mais deste mundo — e contudo, para o meu horror, eu divisava, na sua silhueta carcomida e com os ossos à mostra, uma maléfica e abominável caricatura da figura humana; e, na sua indumentária mofada e em desintegração, uma qualidade inominável que ainda mais me regelava.
Eu estava quase paralisado, mas não tanto que não chegasse a esboçar um débil esforço de fuga; um cambalear para trás, que falhou em quebrar o feitiço em que me mantinha aquele monstro silencioso e inominado. Os meus olhos, enfeitiçados por aquelas órbitas vítreas que asquerosamente os fitavam, recusavam fechar-se; no entanto, estavam misericordiosamente embaçados e, após o primeiro choque, viam apenas indistintamente o objeto terrível. Tentei levantar a mão para cobrir a vista, mas o abalo dos meus nervos era tamanho que o braço não me obedecia. A tentativa, contudo, foi suficiente para me perturbar o equilíbrio; de modo que precisei arrastar-me alguns passos à frente para não cair. Ao fazê-lo, fui tomado pela súbita e agoniada consciência da proximidade daquela coisa putrefata, cuja respiração profunda e odiosa eu julgava poder ouvir. Quase enlouquecido, fui ainda capaz de projetar uma mão para afastar a fétida aparição, que estava cada vez mais próxima; foi então que, num cataclísmico instante de pesadelo cósmico e de infernal acaso, os meus dedos tocaram a apodrecida pata que o monstro estendia sob o arco dourado.
Não cheguei a gritar, mas todos os demônios que cavalgam o vento da noite o fizeram por mim quando, naquele mesmo instante, desabou sobre a minha consciência uma fugaz avalanche de memórias que me devastou a alma. Soube naquele instante o que havia acontecido; recordei o que havia para além do terrível castelo e das árvores, e reconheci o edifício modificado em que me encontrava agora; e, o mais terrível de tudo, reconheci aquela ímpia abominação que me fitava maleficamente, enquanto eu retirava dos seus os meus dedos maculados.
Entretanto, no cosmo existe bálsamo para todo amargor, e esse bálsamo é onepente. No supremo horror daquele momento, olvidei o que me havia horrorizado, e a irrupção de memórias sombrias desvaneceu-se em um caos de ecoantes imagens. Como num sonho, fugi daquele maldito edifício assombrado e pus-me a correr rápida e silenciosamente sob a luz do luar. Quando retornei ao cemitério de mármore e desci os degraus, constatei que o alçapão de pedra não se movia; todavia não me lamentei, pois sempre odiara o antigo castelo e as árvores. Agora, junto com os jocosos e amigáveis demônios, cavalgo o vento da noite e folgo, durante o dia, por entre as catacumbas de Nephren-Ka, no velado e desconhecido vale de Hadoth, às margens do Nilo. Sei que a luz não é para mim, salvo aquela que a lua derrama sobre as tumbas de pedra de Neb; nem tampouco a alegria, salvo aquela dos inominados festins de Nitokris, debaixo da Grande Pirâmide; contudo, no meu novo estado de liberdade e selvageria, chego quase a dar as boas-vindas à amargura do alheamento.
Afinal, embora o nepente me tenha acalmado, nunca me esqueço de que sou um forasteiro; um estrangeiro neste século e entre aqueles que ainda são homens. Isto eu sei desde que estendi os dedos para a abominação que me fitava de dentro daquela grande moldura dourada; desde que estendi os dedos e toquei a fria e rígida superfície de um espelho polido.
H. P. Lovecraft nasceu em 1890 em Providence, Rhode Island, onde viveu a maior parte de sua vida. Ele escreveu muitos ensaios e poemas no início de sua carreira, mas gradualmente se concentrou na escrita de histórias de terror, após o advento em 1923 da revista Pulp Weird Tales, para a qual contribuiu com a maior parte de sua ficção. Seu relativamente pequeno corpus de ficção - três romances curtos e cerca de sessenta contos - exerceu, no entanto, uma ampla influência no trabalho subsequente no campo, e ele é considerado o principal autor americano de ficção sobrenatural do século 20. H. P. Lovecraft morreu em Providence em 1937.

