O estudante
Neste conto, Anton Tchékhov nos mostra que toda história está conectada entre a beleza e a verdade, por meio da narrativa de um estudante clérigo sobre o evangelho da negação de Pedro
Este conto foi publicado em maio de 2018 no número 20 da revista Cadernos de literatura em tradução, da Universidade de São Paulo, com tradução de Diego Moschkovich. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 11 de novembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Começou fazendo tempo bom, quieto. Os pássaros berravam e, das vizinhanças do brejo vinha um zumbido queixoso, como se alguém soprasse numa garrafa vazia. Uma galinha aparece e leva um tiro, que ecoa cortante e alegre pelo ar primaveril. A chegada da noite, depois, que vem do leste e cai sobre a floresta soprando um vento frio impróprio, faz tudo silenciar. Pequenas agulhas de gelo começam a brotar pelas poças d’água, e tudo, tudo na floresta torna-se incômodo, mudo e hostil. Cheira a inverno.
Ivan Velikopólski, estudante seminarista e filho do diácono, voltava para casa apressado pela trilha que cortava o pântano. Os dedos já entorpeciam e o vento queimava o rosto. Parecia que aquele vento repentino chegara para destruir toda a ordem e o consentimento, de uma forma tão estranha à própria natureza que, por isso mesmo, a noite engrossara antes do que devia. Os arredores estavam desertos e especialmente sombrios. Uma fogueira luzia na horta das viúvas, e só. Lá longe, onde ficava a aldeia, a umas quatro verstas, tudo mergulhava inteiramente no gelado breu da noite. O estudante se lembrou de como, ao sair de casa, sua mãe limpava o samovar sentada no hão, descalça. Lembrou de como seu pai se esquentava deitado aos pés do forno, tossindo. Lembrou de como não se cozinhava nada em casa naquela sexta-feira da Paixão, e de como queria-se dolorosamente comer. Encolheu-se de frio e pensou em como aquele mesmo vento já soprava nos tempos de Riúrik. Depois, pensou em como já soprava também nos tempos de Ivan o Terrível e também nos tempos de Pedro, o Grande [1]. Pensou em como existia, também, a mesma pobreza feroz, a fome, os mesmos telhados esburacados de palha, a ignorância, a angústia, aquele mesmo deserto ao redor, as trevas, o sentimento de opressão. Todos horrores que existiam, existem e existirão, e poderiam passar mais mil anos que a vida não se tornaria melhor. Ivan não quis ir para casa.
Chamava-se “horta das viúvas” por que era uma horta de duas viúvas, mãe e filha. Uma fogueira queimava calorosa, aos estalidos, iluminando longe a terra lavrada. A viúva Vacilíssa, velhota alta e gorda, metida num capote masculino, estava parada em pé ao lado do fogo e olhava pensativa para a labareda; sua filha, Lukéria, pequena, sardenta e de rosto estúpido, estava sentada no chão de terra e lavava um caldeirão e algumas colheres. Obviamente tinham acabado de jantar. Ouviam-se as vozes masculinas dos serviçais, que davam de beber aos cavalos no rio ali perto.
– Olhem só, não é que o inverno voltou, mesmo? – disse o estudante, se aproximando da fogueira. – Olá!
Vacilíssa se assutou, mas logo em seguida se lembrou do menino e abriu um sorriso amigável.
– Nem te reconheci, você vai ficar rico! [2] – disse ela. – Deus o guarde.
Conversaram. Vacilíssa – mulher experiente, serva ama-de-leite por algum tempo, depois babá – se expressava delicadamente e seu rosto abria sorrisinhos leves, aos poucos; sua filha, Lukéria, mulher da aldeia surrada pelo marido, olhava vesga e calada para o estudante, com uma expressão estranha, quase surdomuda.
– Foi assim que o apóstolo Pedro se esquentou numa fogueira, – disse o estudante, estendendo as mãos para o fogo. – Ou seja, naquela época também fazia frio. Que noite mais estranha, não, tia? Uma noite extraordinariamente triste, e longa!
Olhou ao redor para a escuridão. Perguntou, suspirando:
– Suponho que você já tenha ido às leituras dos doze evangelhos, tia?
– Fui, sim – respondeu Vacilíssa.
– Lembra o que Pedro disse a Jesus, na última ceia? “Contigo eu estou pronto para ir até a escuridão, e até a morte.” E o senhor lhe respondeu: “Te digo, Pedro, não cantará o galo hoje até que você me tenha negado três vezes, dizendo que não me conhece.” Depois, enquanto Jesus sofria mortalmente no jardim, o pobre Pedro, de alma cansada, fraco, sentia os anos pesados em suas costas. Sem forças para lutar contra o sono acabou adormecendo e o resto você já sabe. Judas, na mesma noite beijou Jesus e o traiu para seus inimigos. Foi levado acorrentado até o sacerdote e espancado. Pedro, prostrado, incomodado pela angústia e pela ansiedade, entende. Ele pressentiu, sem ter dormido, que aqui na terra estava para acontecer algo terrível, e seguiu. Pedro amava Jesus apaixonada e incondicionalmente, e agora via de longe como o espancavam.
Lukéria deixara as colheres e agora mantinha um olho fixo no estudante.
– Chegaram ao sacerdote, – continuou, – começaram a interrogar Jesus e, ao mesmo tempo, os trabalhadores acenderam uma fogueira no meio do pátio. Estava frio, eles precisavam se esquentar. E ali do lado do fogo, com eles, estava Pedro, e se esquentava também, assim como eu, agora. Uma mulher o viu e disse: “Este aqui também estava com Jesus”, ou seja: ele também precisava ser levado ao interrogatório. E todos os trabalhadores acocorados em volta da fogueira olharam desconfiados e severos para ele, porque Pedro se incomodara e dissera: “Não o conheço.” Um pouquinho depois mais alguém reconheceu nele um dos discípulos de Jesus e disse: “Você também é um deles.” Mas Pedro mais uma vez negou. E pela terceira vez alguém se dirigiu a ele: “Não foi você que vi com ele hoje no jardim?” E Pedro negou pela terceira vez. Depois disto, imediatamente cantou o galo e Pedro, assistindo de longe a Jesus, lembrou-se das palavras que este lhe dissera durante a ceia. Lembrou, voltou a si, saiu do pátio e amargo, amargo chorou. Nos evangelhos está escrito: “E partira, chorando amargamente”. Eu fico imaginando: o jardim quieto, quieto, escuro, escuro, na escuridão mal se ouve o chorinho surdo...
O estudante suspirou e pensou. Continuando a sorrir, Vacilíssa de repente soluçou e lágrimas grandes e abundantes começaram a deslizar sobre suas bochechas. Ela afastou com as mãos o rosto do fogo, com vergonha de seu próprio pranto. Lukéria corou olhando fixamente para o estudante, e sua expressão ficou pesada, tensa, como numa pessoa que suporta uma dor imensa.
Os serviçais voltavam do rio. A luz do fogo já tremeluzia na figura do primeiro, que vinha montado a cavalo. O estudante desejou às viúvas uma boa noite e seguiu em frente. Mais uma vez rodearam-no as trevas e seus dentes começaram a ranger. O vento soprava cruel. De fato retornava o inverno, e não parecia nada que depois de amanhã seria Páscoa.
O estudante pensava em Vacilíssa: se tinha chorado, é que tudo que passara naquela noite estranha com Pedro fazia, para ela, algum sentido...
Olhou em torno. O fogo solitário piscava calmo na escuridão, e ao seu redor já não se viam as pessoas. O estudante novamente pensou que, se Vacilíssa chorara, e sua filha se incomodara, então obviamente aquilo que contara, ocorrido dezenove séculos atrás, possuía relação com o presente - com as duas mulheres, e claro, com aquela aldeia deserta, com ele próprio, com todos os homens. Se a velhinha havia chorado não era porque ele sabia contar histórias, mas porque Pedro lhe era próximo, e porque ela se interessara, com todo o seu ser, por aquilo que acontecera na alma de Pedro.
De repente sentiu uma alegria levantar-se em sua alma. Uma alegria tão grande que teve até mesmo de parar por um minuto, a recobrar o fôlego. O passado, pensou, liga-se ao presente por uma corrente ininterrupta de acontecimentos, que brotam um do outro. A impressão que tinha era que acabara de ver as duas pontas desta corrente: tocara uma delas, distanciara-se da outra.
Ao se aprumar no barquinho para cruzar o rio, viu sua aldeia natal levantando-se sobre a montanha ao leste, por onde, como uma fita, a fina e gélida aurora carmim inundava o céu. Pensou que a verdade e a beleza, que haviam dirigido a vida dos homens lá no pátio do sacerdote continuavam ininterruptamente até os dias de hoje, e, ao que lhe parecia, sempre seriam o principal na vida humana, e na Terra de forma geral; a sensação de juventude, saúde, força – ele tinha apenas vinte e dois anos – e a inexpressável doce espera da felicidade, da invisível e secreta felicidade, tomaram conta dele aos pouquinhos. A vida lhe parecia deliciosa, maravilhosa, e cheia do sentido mais elevado.
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[1] Riúrik, Ivan (o Terrível) e Pedro (o Grande) – foram tsares da Rússia. Riúrik (830-879 d.C.) é consi-derado o primeiro tsar. Ivan (1530-1584), é considerado unificador do Império Russo. Pedro (1672-1725) é considerado o modernizador da Rússia, tendo criado a face moderna do Império. (N.T.)
[2] Trata-se de uma antiga superstição russa que diz que a pessoa que não for reconhecida num encontro enriquecerá. (N.T.)
Anton Tchékhov (1860 - 1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos.

