Fotos Pós-Chernobyl: as revelações de Vanessa Barbara
Escritora relata em podcast relação abusiva com sócio de uma grande editora

A jornalista Vanessa Barbara expôs abusos que viveu em um casamento com um editor e como a traição foi compartilhada num grupo de e-mails de 15 homens, todos envolvidos com literatura e jornalismo. A história aconteceu há 14 anos e foi revelada no mais recente episódio do podcast Rádio Novelo Apresenta, que também pode ser ouvido pelo YouTube ou lido em PDF.
Segundo Barbara, seu ex-marido a traía com outra mulher, mentia e contava os detalhes de suas aventuras amorosas a um grupo de e-mails composto de homens "supostamente progressistas", então na casa dos 30 anos de idade. O grupo privado de e-mails era conhecido como FPC, “Fotos Pós-Chernobyl”. “A argamassa afetiva dessa turma era a misoginia”, afirma Barbara. De acordo com ela, os participantes descreviam o grupo como “conversa de vestiário”, tópico de debate da cultura do estupro.
Barbara descreve que sofria de depressão. Em meio às mentiras para esconder a traição, o então marido teria sugerido que ela solicitasse ao psiquiatra "aumentar a dose dos antidepressivos".
O podcast não revela os nomes dos envolvidos. Barbara se refere ao ex como "Tito", mas ficou fácil deduzir de que se trata do editor André Conti, que na época trabalhava na Companhia das Letras e hoje é um dos proprietários da editora Todavia. Barbara começou a suspeitar de Conti quando recebeu por e-mail uma nota fiscal de um hotel em nome do marido.
"Não é nenhuma surpresa que todos os integrantes da lista de FPC tenham ótimos empregos, até onde eu sei: alguns são editores, outros têm colunas em jornal ou trabalham em grandes fundações. São curadores de eventos e jurados de prêmios", afirma Barbara no episódio.
O caso serviu de inspiração para um livro de Barbara de 2015: Operação Impensável, que usa os mesmos pseudônimos do podcast. Ela publicou outras obras, entre elas O livro amarelo do terminal, pela Cosac Naify, e um dos textos mais celebrados da revista piauí, O Louco de Palestra.
Conti respondeu no Instagram, que é fechado, com um link aberto reconhecendo equívocos no relacionamento. "Há catorze anos, cometi uma série de erros dolorosos que culminaram no fim de um casamento", afirma (leia a íntegra). "Manipulei e coagi minha ex-esposa de forma machista e misógina", diz.
A Todavia publicou uma nota em que diz reconhecer "a gravidade dos acontecimentos narrados no podcast que envolvem um de nossos sócios". "No momento, buscamos garantir a manutenção de um espaço de acolhimento para nossas colaboradoras e colaboradores", afirma o texto.
Natércia Pontes, casada atualmente com Conti e escritora com livros editados pela Companhia das Letras, publicou texto em que acusa Barbara de praticar assédio de "diferentes formas" há anos. Segundo ela, Barbara enviou uma mensagem amistosa em junho do ano passado para Conti solicitando ajuda na divulgação de um livro. A mensagem não foi respondida por Conti, de acordo com Pontes.
"Hoje ele tem 44, uma família, boletos a pagar, angústias existenciais como qualquer um que vive nesse país de merda", diz um trecho do texto. Pontes chega a destacar as "sobrancelhas de desenho duvidoso" de Barbara no texto qualificado por ela como “legítima defesa” a um “ataque” contra sua família.
Listas com os supostos envolvidos no caso passaram a circular nas redes e parte deles se manifestou. Em linhas gerais, os escritores confirmam a participação na lista de e-mails e que recebiam as narrativas de adultério de Conti, porém negam que o grupo era dedicado a misoginia – as mensagens são comparadas ao que hoje são os grupos de WhatsApp.
Alguns deles criticam a Rádio Novelo por não ter aberto um direito de resposta no podcast. Outros ameaçam tomar medidas judiciais contra pessoas que estão difundindo inverdades sobre o caso (veja abaixo a íntegra das manifestações dos escritores).
A jornalista Bianca Santana, doutora em ciência da informação, escreveu uma carta aberta em solidariedade à Barbara. "A náusea e o suor nas mãos ao ouvir e ao escrever indicam como a cicatriz de Vanessa Barbara é minha e é funda", escreveu.
Ainda sobre o caso, a escritora Milly Lacombe publicou um artigo no UOL. "O que Vanessa Barbara conta é uma história de infinitas camadas de violências. O orquestramento de um abuso psicológico. A fabricação e a introjeção da ideia de loucura dentro de seu corpo jovem", diz o texto.
O frenesi das redes sociais envolveu até quem não tem relação com a história: Alexandre Rodrigues, jornalista do Globo. A foto dele passou a circular como se fosse um dos integrantes do FPC. "Sou vítima neste momento de um terrível mal-entendido, provocado por pessoas absolutamente irresponsáveis no mundo do dedo nervoso da internet", disse ele no X.
Leia a íntegra das manifestações publicadas por pessoas que faziam parte do FPC:
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