Este conto foi publicado em janeiro de 2025 na segunda edição da Revista Julia, da editora Arte & Letra. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 2 de dezembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Pela estrada seguem os veículos festivamente decorados, cujo número exato as tomadas rápidas e aproximadas não permitem saber. Então, a câmera muda o foco da ação e passa a mostrar uma menina, de cerca de doze anos de idade. À beira da mesma estrada, ela parece estar preparando a terra para o plantio; com uma ferramenta, extirpa o mato inútil. Ela veste roupas muito humildes. Um automóvel, conduzido por dois militares, estaciona diante dela e um dos homens lhe entrega um bilhete, onde se lê que alguém morreu num acidente. Pedem-lhe que leve a mensagem a uma terceira pessoa. Os nomes árabes não revelam o sexo do morto, nem daquele que deverá receber a notícia trágica. Na tomada seguinte, a menina está sobre a carroceria de um dos veículos, que são caminhões de pequeno porte, do tipo usado para entrega de mercadorias leves. Ao seu redor, espremidos entre outros passageiros, músicos tocam flautas e tambores. Fitas e bandeirolas, amarradas ao madeirame da carroceria, se alongam ao sabor do vento, enquanto a menina estampa no rosto o esboço de um pranto. Este se destrava quando ela desce do caminhão e corre ao encontro do homem parado diante da pequena casa de pedra, contando-lhe, lágrimas e palavras se entrelaçando, sobre o acidente e a morte. O homem se desespera, uma mulher sobrevém à porta, duas meninas menores surgem, a mulher levanta as mãos para o céu, a família se abraça: o filho morreu. O pai apronta-se para partir. Mas que veículo é aquele onde ele se instala, vestindo um maltratado casaco de inverno? O veículo é uma espécie de trator agrícola, gasto e obsoleto, que a duras penas puxa uma frágil carroceria de madeira. O homem vai, ganha a estrada asfaltada, a luminosidade do dia indicando que o crepúsculo se avizinha. Então anoitece, e o seu meio de transporte, arrastado pelo motor precário, desaparece perigosamente na via escura. O homem para em algum lugar, que pode ser um posto de gasolina ou um restaurante de beira de estrada. Ao ser informado sobre o propósito daquela viagem, o homem que cuida do estabelecimento oferece ao viajante um lampião, que é instalado na carroceria do trator. E assim ele segue, a candeia ousando medir forças com a escuridão dentro da qual a estrada flutua. No meio da madrugada, depois de horas passadas ao volante, rente ao acostamento, intimidado pela velocidade e pelo rugido dos outros carros, o homem chega aos limites de uma pequena cidade. Retira do bolso o papel que a filha lhe dera e o mostra a um motorista de táxi, pergunta se ele sabe ler, conta-lhe o acontecido. O motorista, solidário com a sua adversidade, amarra o trator ao para-choque do táxi e o conduz pelas ruas mortas do lugarejo até diante do quartel do exército. Em retribuição, o homem entrega ao motorista um embrulho com pedaços de frango assado. Dirige-se então ao soldado na guarita e se apresenta como o pai do recruta morto em acidente. A sentinela, fuzil adormecido sobre o ombro, argumenta que a hora é imprópria e que é preciso esperar o raiar do dia e o início do expediente, ao que o homem, resignado, retorna ao carro e enfrenta o que resta da noite espremido entre o volante e o respaldo do banco. Dia feito, volta ao quartel e pergunta pelo filho. O soldado que o atende indica o caminho, abre uma porta, entrega a ele uma fita cassete que ali fora deixada por um companheiro do falecido. Sozinho numa sala, o pai enfrenta o caixão simples, de pinho. Está fechado, disposto sobre uma mesa comprida. Silêncio. Num impulso repentino, sem nem mesmo verificar seu conteúdo, agarra-o com dificuldade e o arrasta para a rua, sob o sol cada vez mais alto.
Nessa hora, creio haver perdido alguma coisa, pois não entendo como o homem possa ter burlado a vigilância do quartel.
Ofegante, ele instala o caixão na carroceria e segue viagem. Seu rosto é sereno durante o trajeto, como se, de posse do filho, o mundo ao seu redor tivesse mergulhado naquele tipo de silêncio que sucede ao desligamento de uma máquina barulhenta. A dor parece estar suspensa, impedida de ser dramatizada, mas em estado latente, como se apenas aguardasse a presença de outros atores para explodir. Quando ele chega em casa, a filha mais velha, que antes capinava na beira da estrada, corre até o veículo, vê o caixão e o toca com as duas mãos. O choro começa miúdo entre os dois e num instante se solta, envolvendo as duas outras meninas. Onde está a mãe? — pergunta a câmera ao focalizar a porta vazia.
Meus olhos me ameaçam com lágrimas que não chegam a se derramar, mas que preenchem todo o espaço entre os cílios. Isso poderia fazê-los reluzir nas cenas exteriores. Ao meu lado, vislumbro o perfil de Olívia, concentrada no filme. Diria que ela nem pisca. Temo que ela tenha percebido algo e esteja se esforçando para não demonstrar.
O sepultamento se realiza. Só há homens presentes e eles se revezam no ma-
nuseio da pá que cobre com terra a última morada. O pai, ainda vestido com seu casaco de lã, recebe o consolo de cada um dos que acodem à cerimônia. Na volta aos afazeres cotidianos, a filha mais velha o auxilia a dispor em caixas as batatas recém-colhidas, espécimes graúdos e saudáveis, limpos da terra que os cobria. Dividindo o assento estreito do trator, e com as caixas na carroceria, eles tomam a estrada e chegam a um grande mercado ao ar livre.
Discretamente, procuro observar a reação das pessoas ao meu redor, em particular a de meus vizinhos. À esquerda, Olívia, à direita, Rubens, ambos absortos pela trama que se desenrola diante de seus olhos. Ainda os conheço pouco, mas já gosto deles. Ao concentrar-me novamente na tela, vejo o homem entrar numa farmácia e perguntar ao farmacêutico qual o remédio indicado para tristeza.
O farmacêutico o conduz a uma saleta nos fundos e, a salvo de olhares curiosos, explica que tal remédio não existe e sugere que ele vá com sua mulher passar uns dias no campo. Já moramos no campo, o homem diz, ao que o farmacêutico, após uma pausa, relata a história de um parente que, tendo sofrido perda de magnitude semelhante, decidiu repintar a casa onde vivia com a família. De que cor? — pergunta o homem, e o outro responde: amarelo. O homem e a filha mais velha acomodam na carroceria galões de tinta comprados na cidade. A volta dos dois pela estrada tem um ar auspicioso, que se mantém quando, com a participação das outras meninas, pintam de amarelo cada uma das pedras que compõem a habitação rústica. A esposa, porém, não melhora, e o homem aparece conversando com um rapaz no balcão e um pequeno restaurante. Ele pergunta ao rapaz sobre o equipamento eletrônico que vê na prateleira logo abaixo do aparelho de TV, instalado num canto da parede em frente ao balcão. O jovem esclarece que se trata de um aparelho que, quando acionado, faz surgir na tela da TV imagens guardadas dentro de uma fita. O homem pergunta se da próxima vez que fizer entrega de batatas poderá trazer uma fita que possui, para ver as imagens que estão contidas nela, ao que o jovem responde generosamente que sim.
Algumas cenas mais tarde, cenas essas que perdi, distraído, o homem está de volta ao restaurante.
Sua roupa agora é um macacão roto e empoeirado. Ele entrega a fita de vídeo a outro homem, aparentemente o proprietário do estabelecimento, que se encontra atrás do balcão. Este, uma versão envelhecida do garoto que o recebera dias antes, aproxima a fita do aparelho, que de imediato a devora, ao mesmo tempo em que a tela da TV começa a se agitar com imagens coloridas, mas desprovidas de nexo. Finalmente, surge diante dos dois homens a figura de um rapaz vestindo farda do exército e falando diretamente para eles: pai, mãe, estou com saudade de vocês, e de minhas irmãs, estou com saudade da nossa cidade, da nossa casa, mas estou feliz porque em breve terei uma folga e estarei aí com vocês. E mais algumas palavras que querem dizer basicamente a mesma coisa. A imagem é tremida, o moço está intimidado diante da câmera que o perscruta. Tudo isso dura não mais do que dois minutos e então a imagem torna a ficar ininteligível. Antes de manifestar qualquer emoção, o pai do filho ressuscitado na tela pergunta ao dono do restaurante o preço daquela máquina que não conhecia. O outro, hesitante, estipula um valor monetário que, após alguns minutos de negociação, acaba sendo convertido em certa quantidade de caixas de batatas, a serem entregues ao longo de três meses. O homem atravessa o salão repleto de mesas carregado e satisfeito, se isso se pode dizer de um homem na sua condição.
Como é estranho, penso eu, que haja momentos de genuína alegria por uma meta alcançada no rastro de uma tragédia tão brutal. Por alguns instantes, aquele homem se dedicou de corpo e alma a barganhar o preço do videocassete e agora está feliz por tê-lo comprado. Em nenhum momento sua dor deixou de existir, mas o ímpeto com que se entregou à tarefa, lançando mão de antigas habilidades, e o sucesso obtido ofuscaram temporariamente o seu sofrimento.
Só quando chega em casa o homem compreende que o equipamento não pode funcionar ali, pelo simples fato de que a casa não possui energia elétrica. A filha mais velha explica o que é necessário para a sua instalação e o pai decide falar com o prefeito para pedir providências. Nesse ponto tem início uma nova peregrinação, agora em busca de uma entrevista com o prefeito da cidade. Depois de várias tentativas, e de suportar a zombaria dos burocratas da prefeitura, espantados com o seu atrevimento, o homem finalmente é recebido pela autoridade, que, solidário diante de tamanho infortúnio, ordena que atendam ao seu pedido.
Minha concentração começa a diminuir, como um tecido que o uso contínuo vai esgarçando. Assisto a fios sendo puxados, equipamentos elétricos, algum trabalho sendo feito nas imediações da casa, junto às torres de força.
A família está reunida na sala, em torno da televisão, esperando. Alguém vigia um relógio, até que uma volta qualquer do ponteiro, aparentemente igual às outras, dá o sinal para que a TV seja ligada.
Os acontecimentos recentes não têm a mesma força da primeira saída do homem pela estrada, da busca pelo filho morto, da posse do caixão, da travessia de volta, do reencontro com as filhas. Meus olhos permanecem enxutos desde então. Mesmo assim, mantenho meus vizinhos na mira enviesada, sobretudo Olívia, que julgo ter testemunhado minha emoção quando o camponês partiu naquela tarde terrível, quando o veículo que conduzia dotou-se da luz franzina que tomara emprestada e quando, por fim, acomodou o féretro na carroceria, como se de alguma forma seu coração também estivesse sendo acomodado. Acho que depois sairemos para jantar, ou ao menos para beber uma cerveja. Apesar de nos conhecermos pouco, ela talvez me faça perguntas, atiçada pela curiosidade. Mas não logo de cara, não durante os aperitivos e talvez nem mesmo enquanto comemos, somente mais tarde, embalada pelo álcool, esse árbitro parcial das disputas entre o medo e o desejo. Então, num aparte enquanto os outros discutem cinema e política, ela me perguntará sobre as razões para o meu piscar de olhos exagerado, desproporcional à necessidade de adaptação ao escuro e à poeira dos estofados decrépitos.
Agora todos assistem à imagem já vista pelo pai. Ao contrário do que se poderia prever, a mãe não se desespera ao rever o filho; ela abre um sorriso generoso, como se a realidade da morte fosse suplantada pela realidade não menos legítima do reencontro.
E eu, fingindo não estar esperando pela pergunta, direi que a história fez recordar meu filho. E não direi mais nada.
De fato, é o que eu digo, sob as luzes do restaurante, enquanto a garçonete enche os copos com a primeira cerveja do tempo extra após a retirada dos pratos. Olívia faz a inevitável pausa, que se não fosse pelo choque que acaba de sofrer, faria por respeito, uma pausa exigida pela morte a cada lembrança de sua existência. Por alguns segundos, ela mantém o olhar fixo sobre a toalha. Não esperava que a emoção demonstrada por mim durante o filme fosse além da mera empatia, não contava com esse atalho a aproximar minha vida real da ficção que acabamos de presenciar.
Eu gostaria de poder voltar atrás e aliviar o peso que se instala deste lado da mesa, o lado em que eu e Olívia bebemos cerveja, enquanto os outros conversam sobre cinema e política, mas não foi inventada ainda uma maneira de rebobinar as palavras. Observo-a com cuidado. Ela não sabe se seria apropriado fazer mais perguntas: o nome, a idade, onde, como, se ele era o único. Sinto-me responsável pelo seu desconforto.
Assim, como se me colocar à sua disposição para esclarecimentos pudesse de alguma forma compensar o constrangimento causado, assumo um ar solícito. Enquanto Olívia toma fôlego num gole de cerveja, aguardo com tranquilidade sua decisão, disposto a fornecer os dados que me forem pedidos. Mas que dados eu poderia lhe oferecer se solicitado a fazê-lo? Naturalmente, não poderia me basear na morte do meu filho, criatura tão fictícia quanto o camponês e sua família, ou melhor dizendo, ainda mais fictícia do que eles, pois sobre meu filho imaginário jamais uma história foi filmada. O que dizer de alguém que não existiu? Como descrever um acontecimento que não houve? E como dizer, agora, que eu inventei esse filho e sua morte? Mais do que culpado pelo desconforto de Olívia, sinto-me envergonhado com a mentira leviana, a invenção do filho que nunca tive e do episódio trágico que não ocorreu.
O silêncio prossegue e eu me esforço para parecer sereno. Olívia bebe mais um gole do pouco que resta no copo, tomando cuidado para que a bebida não acabe. Vejo farelos de pão esquecidos ressurgirem sob os seus dedos, pressionados contra a toalha.
Ao mesmo tempo em que sofro com o balbucio mudo das suas mãos, sinto que um peso começa a se levantar do meu espírito. O peso de um aconteci- mento do passado remoto, mas que de tão denso parece ter ocorrido em dias recentes: um menino obscuro (talvez um parente, ou vizinho, ou nem isso), morto, e a presença de alguém perto de mim, provavelmente seu pai, a buscar o consolo do desconsolo compartilhado. Essa cena fugaz, situada em algum ponto da infância, eternizou-se na minha memória, atravessando os anos, deixando para trás suas personagens, e agora se revela finalmente através de uma mentira.
Nunca pensei que uma mentira pudesse fazer o papel de verdade libertadora. Se eu tivesse dito a verdade, descrito a cena longínqua, o menino morto e a agonia do pai, ou se tivesse me referido à emoção que qualquer homem sente ao presenciar cenas como as que vimos no filme, talvez recebesse como resposta apenas um movimento de cabeça, as linhas do rosto de Olívia indicando concordância. Ou então uma pausa breve e, em seguida, um assunto mais ameno seria invocado. Porém, ao transformar em meu filho o menino morto preso na memória, posso enfim sentir de direito a dor que há muito tempo sentia de fato.
Agora já não me importo que a garçonete reapareça, com seu caderninho nas mãos, anunciando uma mudança de rumos na conversa deste lado da mesa. Olho para ela, recém-saído de um momento de libertação. Estou certo de que fiz a escolha perfeita de quem me libertaria: uma pessoa entre tantas, colegas ocasionais numa reunião de trabalho, companheiros fortuitos numa sessão de cinema, a centenas de quilômetros de casa. Pessoas que conheço pouco e que provavelmente jamais voltarei a encontrar, facilitando o esquecimento e a impunidade da mentira que criei. Olívia toma rapidamente o último gole e, antes que eu possa articular uma sílaba, levanta a garrafa vazia em direção à garçonete enquanto me pergunta, sorrindo, qual minha impressão sobre o desempenho dos atores.
Mário Araújo nasceu em Curitiba. Formou-se em Educação Artística e trabalhou como professor e publicitário antes de entrar para a carreira de diplomata. Seu primeiro livro, A Hora Extrema, recebeu o Jabuti (2006), na categoria “Contos e Crônicas”. Em 2008 publicou Restos, elogiado por Millôr Fernandes, Cristovão Tezza e Luiz Ruffato. Participou de antologias no Brasil, Alemanha, Cuba, Espanha, Finlândia e México, e de revistas nos EUA, Inglaterra e França. Entre 2013 e 2017 escreveu crônicas semanais para o site “Vida Breve”, reunidas na coleção AnônimoNômade (2023).

