Corrimão verde-bosta
Neste conto de Thiago Mostazo, acompanhamos o narrador sendo enredado pelos muitos dilemas que podem espreitar um único dia
Este conto foi publicado em maio de 2019 na edição de n° 1 da revista USO. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 4 de novembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Pendia sobre um corrimão verde-bosta levemente inclinado para a esquerda. Não era bonito, por certo. O objeto amarelo e viscoso tinha detalhes pretos e uma consistência não muito consistente de aspecto jaqueta velha que fica abandonada no armário, com um leve odor de podridão e doçura, como se pudesse, em uma simbiose inesperada, confundir qualquer juízo de valor about the sweet and rot. Às vezes eu não conseguia deixar de pensar em inglês, sintoma da mente entupida de John Wayne’s e Adam Sandler’s & Co. Enfim, era amarelo o objeto, e verde-bosta o corrimão.
Eu passava alheio a tudo aquilo, e não teria reparado nesse detalhe não fosse a cusparada do velho, que estava num bom dia. Nos piores, ele nem se dava ao trabalho de responder aos acenos humanos. Era um maldito, mas por alguma razão lhe era permitida a existência. Cuspiu e abriu um largo e sincero sorriso. Eram 11 horas e vinteecinco da manhã. ..fim da primeira sessão de treinos.. eu e minha toalha de rosto já esboçávamos uma reação quando me deparei com a cena.
Será possível isso?, indaguei ao velho
Pfff..., respondeu ainda sorrindo
A gente passa anos estudando as coisas, observando o mundo ao redor pra de repente ter de lidar com isso? Não é justo, meu deus, não é justo seu filhadaputa. Respirei fundo diante da insuficiente tarefa de mudar a realidade e me coloquei a pensar. Ora, se até jesus chorou, então como não contestar, diante dessa anomalia, tudo que nossa experiência como homo sapiens modernos criou e ensinou? Não, minhas enciclopédias não se colocam a serviço de mentiras. Isso não. Melhor ligar pro Joca e acalmar um pouco minhas angústias. Mas e se ele achar que estou louco e começar a mandar os cachorros e porcos atrás de mim? Por certo não vai acreditar na minha palavra... mas reside nele a minha única esperança em explicar essa aberração. O Joca é entendido das coisas, sempre sabe o que dizer pra renovar nossas crenças e trazer a mente de volta pro caminho da verdade: o trabalho e os exercícios. Será que ele está saindo pro almoço e pode dar uma passada aqui? É isso, ele precisa ver com os próprios olhos.
...99347...
Mas calma, e se a mulher dele ficar puta comigo porque eu impedi seu confortável ritual de almoçar em casa? A senha dos casamentos felizes e o castigo dos desajustados. Melhor deixar o Joca fora dessa, ele já disse que eu tô ficando paranoico e sei lá se ele vai chamar a Patrulha pra me buscar. Capaz de convocar a Patrulha ainda hoje, porque ele tem um amigo do sogro dele que trampa lá e eles ficam enviando mensagens engraçadas um pro outro no Whatsapp o dia todo, ele já me contou, e até saem para a infidelidade noturna juntos algumas vezes. Boa relação essa, queria eu conhecer alguém da Patrulha que fosse tão bondoso comigo e permitisse as minhas dúvidas com relação ao tripé. Caralho, isso aqui é muito pesado, pode ser o anti-tripé, uma prova real de que Família, Pátria e Crossfit não seriam os pilares essenciais de nossa civilização ocidental. (!)
... (cuidado Gerson, o velho ainda está aí, só te ouvindo cara, e se ele for da Patrulha, e se de repente você se fode, hein?! Vai-te embora, volta pra sua vida miserável rapaz)...
É verdade que tenho 6 filhas pra pagar e um bocado de contas pra sustentar. Por que eu fui comprar a sexta... é algo que não consigo explicar. Só sei que meus olhos brilharam quando disseram que ela tinha mais chances de virar doutora do que as minhas outras cinco compras. No duro, mostrei a nota fiscal das outras e tudo e o cara da loja me garantiu que dessa vez eu não comprava um gato por lebre. Aliás, o que serão essas lebres? Meu vô contava algo sobre elas, mas não estou mais autorizado a ouvi-lo desde que completou 65 anos e passou a devanear. Essas lembranças de gente velha podem ser uma faísca na cabeça de algum traidor da pátria, obeso, sem bens familiares. Eu já tratei de garantir os meus, ninguém pode me chamar de ingrato. Comprei quatro das seis filhas no início do aluguel de minha esposa para não ter que arcar com o reajuste de preços. A outra veio no segundo aluguel depois que minha esposa se afogou com a minha mão na privada de casa. E agora comprei mais essa pra ver se me sustenta quando eu ficar que nem o velho – por que mesmo que o velho está vivo? Mas eu sempre amei, eu sei que é obrigatório amar. Quando não amo mais, eu me desfaço, aprendi direitinho. Meu pai estaria orgulhoso hoje.
A fome de quê? As mucosas de quem? O objeto amarelo viscoso continuava me encarando e eu imaginei a minha vida, a minha morte e as guerras que passamos até hoje.
Encostei. E nada aconteceu. Logo passa uma moça. Admirável e solitária, ela também se intriga pelo corrimão verde-bosta e o objeto amarelo dependurado por ali, levemente inclinado para a esquerda. O velho logo se anima, levanta e faz uma oferta por ela. Recusada. Já foi alugada por outro e o velho não teria dinheiro de qualquer forma, gostava mesmo era de se divertir à custa dos outros. Um sádico. Não sabia como alugar uma mulher e tenho certeza que no fundo ele não acredita mais no amor. No verdadeiro amor de trabalhar duro durante anos para adquirir o seu par perfeito, a mais bela das moças, do modelo mais recente e bem avaliado pelo Googlenetycs. Esses velhos ainda não entenderam o mundo de hoje. Mas tudo bem, uma hora eles morrem.
Oi.
Olá, você sabe o que é isso?, perguntei.
Sim, é uma casca de banana.
Como? As bananas têm casca!? E é permitido essa bagunceira toda dependurada em um corrimão? Eu achei que fosse algo legalizado, você tá querendo me complicar aqui não é? Cadê... cadê os homens da Patrulha?! Estão chegando, não estão? Eu sabia... que merda, vou ser levado por culpa de um velho e uma mulher, caralho, que destino!
Não sei se entendi seu desespero. Mas as bananas têm casca, sim, você não sabia? Além disso, deve ter sido um descuido de alguém que deixou os restos por aí...
Descuido?! Descuido é o meu ovo, isso foi armado. Estão querendo nos contar coisas que não podemos saber! Além do mais, não existem “restos por aí”... não existe mais excedente, resto, desperdício. Não se faça de tonta, você sabe o que aconteceu com aqueles que desperdiçavam... querem me levar embora porque estou incomodando, falando demais nos jantares, me atrasando 5 minutos para as compras do mês, fazendo uma série de exercícios menor do que antes... deve ser isso, ouaquele filhadaputa do Joca...
Pfffff..., respondia o velho já entediado.
Você não sabia?, me consolava a moça. Os de cima desperdiçam sim, e muito.
Eu não podia ouvir aquilo. Que as bananas tenham casca, vá lá, pode ser uma falha de entendimento minha. Um lapso da minha capacidade de observação diante deste fálico e nutritivo alimento que ingeria, sempre com aveia e mel, depois de uma das duas sessões diárias de Crossfit. Elas já vinham no pote e eu não teria como saber mesmo. Além do mais, com a ração controlada e tudo, às vezes a gente não entra em contato com alguns tipos de alimentos. Mas isso não. Desperdício dos de cima?! A gente aprendeu história, sabe que foram exterminados os malditos de baixo, os que alegavam fome. E a Patrulha nos mostrou que, afinal, eles não se alimentavam porque desperdiçavam. Reproduziram vídeos e imagens em cadeia nacional desses de baixo jogando fora um resto de refeição, catando no lixo o que jogaram por arrependimento, e agora eles querem insinuar que o desperdício que quase levou ao colapso do planeta é culpa dos de cima?! Ah, tenha dó... parece até papo daqueles conspiradores medievalescos que insinuavam que o planeta ia esquentar até explodir. Que nada. – termômetro: 47 graus, tempo agradável sem previsão de chuva ácida e corrosiva no dia de hoje... Culpados, logo eles, os 327 mil escolhidos para sobreviver? Nossos antepassados, os que nos geraram e fazem das mulheres os mais belos produtos, e dos homens os mais dedicados crossfiteiros, todos servos raça pura dos de cima. Servos não, serventes, pois que um dia chegamos lá... lá em cima. Eu não desperdiço. Tu não desperdiças. Vós não desperdiçais. NÓS NÃO DESPERDIÇAMOS. Eu tinha que reagir.
Cala a boca! Como você ousa falar assim dos de cima? Eles te dão tudo, te conseguem a melhor oferta com essa bunda aí que te deram, esse jeito abusado... e você agradece como? Blasfemando. Quem te comprou afinal, hein?
Ninguém, sou sozinha.
Sozinha?!! Você tá maluca? Eu vou ligar já pro Joca pra ele avisar aquele amigo da Patrulha, quem sabe com isso eu me livro dessa merda em que me enfiei...
...99347...
A moça pegou a casca de banana e jogou no chão. Incessante, andei de um lado ao outro, tentando teclar os números enquanto ela estendia a mão e ajudava o velho a se levantar. Ela pegou um lenço do bolso e limpou a boca do velho - ainda suja da noite anterior - apontou para mim e sussurrou algo no seu ouvido.
Minha visão ficou turva. Passei a cogitar a possibilidade de que ela estivesse certa. Afinal, se fosse assim, porque estamos nosexercitandocomoloucos,trabalhandohorasafio,oferecendonossosesforços aos de cima em agradecimento aos seus esforços para preservação da raça? Da raça pura, é claro, eliminados os malditos. - o que o velho está fazendo aqui afinal? –. Quem somos nós? Poderia ser verdade?... Ai jesus, onde estás tu em meu smartphone?
amor
dúvi
da
sabor
banana
Escorreguei na tal casca de banana, caí e acordei por aqui. Estão reprisando esse episódio da minha vida pela 17ª vez, só esperando meu relatório.
... Pendia sobre um corrimão verde-bosta levemente inclinado para a esquerda.
Thiago Mostazo é jornalista e escritor. Atua como produtor da CGTN America e como freelancer para outros veículos internacionais, como Al Jazeera e The Sunday Times. É editor da revista literária Uso e foi apresentador do podcast Vaidapé na Rua.

