Caçada de macuco
Neste conto de Mário de Andrade, acompanhamos o destino de uma paixão proibida, repleta de controvérsias, e a maneira que ela se reflete em detalhes tão pequenos quanto o pio de uma ave
Este conto foi publicado originalmente em 1926 no livro Primeiro andar e reproduzido no site da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos, mantida pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 15 de julho de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Maria na varanda levantando os olhos do trabalhinho de lã, deixou-os cair na faixa da estrada. Percebeu ao longo um cavaleiro. Estremeceu. As patas da besta levantavam do chão uma poeira sanguínea que manchava a fímbria do horizonte. A invernia de agosto caleava o espaço com o fabordão das nuvens sem fim. O ar repousava sobre as coisas com a mornidão dum bafo humano.
Maria cobriu-se mais com o xale, derrubou cuidadosamente a saia até a ponta dos pés num jeito ingênuo de proteção. Pôs-se de novo ao trabalho.
Bem perto o plaqueplaque das patas do animal. O cavaleiro, sacudido, longo, mostrando na face e nas mãos a palidez inglória dos filhos da terra, apeou junto a um mourão. Prendeu a besta e entrou na varanda.
— Boas-tardes… A senhora está muito distraída hoje…
Ela compreendeu a ironia que colorira a frase do moço e retrucou mais pesada:
— Boas-tardes, Tonico. Outra vez por aqui!…
Ele já sério:
— Outra vez.
Desconversaram. Maria não tirara os olhos das agulhas e Tonico descontente consigo mesmo, cabeça baixa brincava com as mãos.
— Meu pai está aí?
— Sim… No quarto. Com este tempo sai pouco.
Era mentira. Aquele “sim” esquisito provava mentira e Tonico sabia muito bem que o pai pouca importância dava à doença. E a tarde era bondosa. No meio do silêncio, dada por finda a ocupação, Maria pôs rápido os novelos na cestinha jacente ao lado. Ia entrar na casa. Tonico procurou prendê-la.
— Maria…
O gesto áspero fez rolar novelos e agulhas pelo chão.
— Me deixe! Olhe aí o que você fez!… e baixava-se para erguer os objetos semeados no tijolo da varanda. Tonico porfiava em agarrar-lhe a mão.
— Já começa! Me deixe, já disse!
— Maria, vamos embora comigo!…
— Não vou! sem-vergonha!… Nem eu, você me deixa sossegada! Vá-se embora!
Tonico oprimia a testa com os punhos, desesperado. Um respeito por aquela mulher que vivera na cidade impedia-lhe bruteza mais franca e sua voz nas intercadências da comoção falava surda em frases curtas repetidas, num romantismo ousado e sério de sertão:
— Venha, Maria! Fuja comigo! Não posso viver assim sem você! não posso mesmo!…
Lágrimas enormes lavaram-lhe as mãos.
— Vá embora, já disse! Se não tivesse medo que seu pai te matasse contava pra ele. Me largue, vamos! Sem-vergonha!
Tonico largou-a mas curvou-se sobre ela como galho de árvore. Tinha nos olhos uma cobardia orgulhosa desesperada, a desafiar:
— Sem-vergonha, mas você há-de vir com o sem-vergonha!
Apontava o matagal que a cem braças, depois da inclinação verde onde o ribeirão se espojava em taliscas e taiobas, erguia-se como o primeiro alarme da terra virgem:
— Toda noite você há-de ouvir pio de macuco. Sou eu embaixo da perobeira. Meu pai é caçador… Ou você vem ou…
E feroz decidido, mesmo correndo, desceu a escada, desamarrou a besta, cavalgou-a. Plaqueplaque plaque, plaq…
Maria imóvel, toda cega pregada ao chão. Sentia n'alma o peso do próprio corpo. Era sempre assim. Às vezes que Tonico lhe falara de amor irritara-se muito, raivara numa zanga sem perigo de jaguatirica mas quando ele partia mortificava-a somente essa piedade comovida. E o sentimento de solidão. A canseira quebrava-lhe os sentidos. Cegava-lhe os olhos um desejo de além. E vaga inquietação…
João Antônio Pires tivera a vida do bandeirante colonizador. Mas alcançara as esmeraldas na fecundidade das terras e das boiadas. Casara-se muito moço ainda, magro pálido, tísico segundo muitos. E na luta da ambição contra a penúria partira cedo para os arcanos altos semi-selvagens de São Paulo com a companheira e o filho recém-nascido. Meteu-se nos trabalhos em que se ganha a riqueza ou se entrega a vida. Viveu a poesia nômade dos tropeiros. Penetrou muitos dezembros o fogareiro de Mato-Grosso, perdeu-se nas axilas bárbaras das serras de Goiás. Aos trinta anos porém já lhe sobrava dinheiro para adquirir o farto cendal de invernadas e mata-virgem onde assentara o lar. Fortificara-se. Enrijara ao contato dos ares escampados tomando a substância e a cor verdecobre dos jatobás e das mulateiras de cerne férreo.
Crescia-lhe o número dos filhos à medida que seus domínios se alargavam e as corredeiras dos cornos dos seus bois inundavam em caudais tonitruantes o aclive das invernadas. Trocara o rancho primitivo pela casa tijolada e chata de cuja varanda descortinava no último adeus dos plainos além, chãos que lhe pertenciam duas léguas continuadas à direita.
Um dia enfim, vendendo por preço feliz uma boiada sentiu morrer-lhe o tempo das preocupações. Foi a São Paulo. Olhou a cidade. Sorriu. Voltou para a fazenda. Trazia na bagagem um arreio com botões de prata para o baio, um punhal para o João – amigo de tempos infiéis – e um vestido de seda cor-de-vinho para a mulher.
Começou então para nhô Pires o seu tempo de rei. Nas abas de suas terras vinham agrupar-se outros criadores menos fortes cujos ousios a cobardia sopitava e quando o patriarca somou 50 anos sabia ter em torno todo um bairro, todo um estado, um império em que mandava ele só. Sujeito de princípios ocasionais, gasto na briga com as intempéries, vencedor das febres e do sertão, criava somente duas grandes inclinações: orgulho e amizade. Orgulho das vitórias e do reinado. Amizade pelo João.
Morrera-lhe a mulher há cinco anos sem que se lamentasse. Não sentiu a falta da serva porque nos arrancos contra a braveza do matagal acostumara-se às omissões e descarinhos. Os filhos, mandara-os para longe ignaros rudes mal sabendo ler, à cata duma riqueza igual à que soubera alcançar. Perpetuassem-lhe a vida e a coragem!… As duas filhas tinham partido também, levando no dorso os maridos que nhô Pires paralisara negando-lhes dote.
Ficara livre. Só. E mais a terra. E mais o orgulho.
Um dos seus descendentes apenas, o Tonico, mais ambicioso ou vil, aninhara-se junto aos campos do pai numa sitioca indecente. Vendia galinhas. Rara vez um capado. Os vizinhos compravam-lhe a criação por atenção a nhô Pires. Tonico aproveitava no preço. Nhô Pires comparava amargo as galinhas do filho aos seus touros de chifres espaçados… Pouca vergonha! Às vezes, quando após o jantar sentava-se na varanda morta e a relembrança das aventuras dourava-lhe a vaidade, a figura de Tonico vinha manchar como bugio esquipático ou touro mocho ridículo os gerais acidentados da sua vida. E o criador amaldiçoava o filho sem mãos.
Então a época do castigo chegou.
Numa das viagens a São Paulo nhô Pires demorou-se mais que o prometido. Havia já impaciência entre os agregados e apreensão no amigo quando uma tarde o fazendeiro contando então perto de 60 anos apareceu na fazenda acompanhado. Seguia-o pouco atrás muito tímida uma moça.
Nhô Pires apresentou-a simplesmente como mulher dele e a vida reencetou a caminhada de ontem, regular.
Sintoma de velhice? Apaixonara-se por Maria apenas a vira sem que houvesse para isso razão influente. A moça não era bonita nem garrida. Mesmo apesar de seus vinte e poucos anos, desses tipos neutros que desarmam os femeeiros mais indiferentes pela qualidade da presa. Olhos de paz, lábios curtos, braços extáticos. Por acaso nhô Pires a vira em lágrimas à janela quando partia o enterro pobre da mãe. Seria o acompanhamento de só dois carros? A influência do jantar bem regado – desses que predispõem a fraquezas sentimentais? O certo é que não se esqueceu mais dela. Voltou. Informou-se. Diziam que ficara sem arrimo sem parentes no Brasil. Os pais defuntos eram italianos. Nhô Pires apresentou-se. Consultou-a, propôs-lhe casamento. Maria necessitada de apoio meia espantada meia grata deixou-se levar. Sem amor mas sem ambição. Tinha a mobilidade espiritual do cadáver. Antes assim! Queria paz, influenciada pela vida inútil dos pais.
Logo se afez sem violência ao novo modo de vida. Sentiu-se inteiramente feliz, sem amor mas dona dum escravo opulento que lhe adivinhava as tristezas e os desejos. Desejos? Que raridade!… Nem isso. Antes preferência indecisa. Uma cadeira aqui, sempre muita água-de-colônia, frutas pouco maduras…
O fazendeiro enfraquecera bastante. Com a paixão. Ou mesmo sem ela. Sentiu-se doente. Como que despertava nele a recordação de males já sofridos. Teve calores, golpes agudos no peito. É que muito frio e borrasca o tinham acompanhado nos últimos quinze dias de caçada no sertão. Tossia. Na capital deram-no como fraco do peito, um nada naquela idade. O ar da fazenda, cuidado, repouso curá-lo-iam. A mulher porém que o seguira ao escritório do médico sobressaltara-se. O doutor olhou-a. Recomendou-lhe higiene, separação de leitos. Nhô Pires ouvira o conselho muito mudo sem um gesto.
Maria a esse contato com a cidade sentira um brotar de ânsias dantes inexistentes. Teve vontade de viver. Ela mesma não sabia explicar essa ideia tola de querer viver. Pois não vivia? E entre despeito e medo voltou para a fazenda.
Aí, sorrateira sem consultar o marido, arranjou outro quarto para si. Afastou-se completamente de nhô Pires. O sacrifício fora superior à sua mocidade. Tratou do doente com dever e com justiça. Seria impossível dar-lhe as quenturas dum amor que… Como seria o amor?…
Nhô Pires viu, antes percebeu tudo calado. Talvez até desse razão à mulher. Mas, e não era já segunda nem terceira fraqueza, sofreu, chorou. Piorava numa depressão muito lenta. A força vital enrijada por tantas lutas passadas cedia mas num ceder insensível espaçado. Se o mal fosse combatido talvez desistisse da vitória. Mas nhô Pires era homem que nunca se contivera e na paixão das caçadas muita vez chuva e noite alcançavam-no longe de casa.
Maria bem que pretendeu guardá-lo mais. Impossível. Procurou recobrar o sossego anterior. Impossível. Desconhecia o que eram revoltas mas seus olhos a cada pôr-de-sol contemplavam sonhadoramente o poente onde no festival das nuvens percebiam cidades enormes em que fremia a violência das multidões. Viveu fora da vida.
Só percebeu a paixão do enteado quando este abertamente lhe falou de amor. Repeliu-o admirada que um desejo assim pudesse nascer em peito de homem. Chorou de envergonhada. De ofendida. Mas como que havia entre os sentimentos informes que a faziam chorar umas pinceladas de arrependimento. Conservou-se fisicamente imaculada com um grande medo do marido. Agora estremecia cada vez que lhe escutava a fala. O poderoso escravo era ainda escravo por inteiro, Maria porém sentia invisível rastejante o ciúme de nhô Pires engradá-la numa atmosfera de predestinação.
Nos últimos tempos que vida de aflições! O fazendeiro entristecera afastado da mulher. Tristeza com muita coisa do crepúsculo sobre o campo. Desolação trágica de sol-pôr.
Maria procurava dar-lhe seu cuidado. Horrorizava-se toda quando o sentia muito perto. Tinha pavor da doença. Muitas vezes nhô Pires percebeu que embora escondida em subterfúgios Maria fugia dele. Então se retirava para o quarto frio de solteiro e não saía mais senão no dia seguinte. Maria falava-lhe da porta arrependida. Nhô Pires pretextava pioras com voz seca. E sentia-se mais só.
— Que pasmaceira é essa, Maria?
Violentou-a um estremeção. Levantou o rosto esforçando-se por sorrir.
— Cansaço.
— Está doente!
— Não. Cansaço.
— Por que você trabalha tanto? Precisa sair um pouco… Vamos dar uma volta…
— Agora vamos jantar.
Irritadíssima, esgueirando-se sob o braço que o marido lhe pusera no ombro entrou na casa. Nhô Pires quis pensar. Mas entrou na casa.
Depois do jantar insistiu no passeio. Maria cedeu. Enquanto dava algumas ordens e se aprontava, nhô Pires mandava preparar o semi-trole. Quando assomou à varanda viu debaixo da pequena escada de pedra o marido já sentado no carro sustendo a besta. Teve um perceptível recuo de desprazer. Desagradava-lhe passear assim. Tinha medo.
— Queria ir a cavalo…
Nhô Pires baixou a cabeça um instante, depois olhando submisso a mulher:
— Por que não disse, Maria. Agora o semi-trole já está pronto…
— Mas…
— Não faz mal. Mando encilhar os animais.
Depois de dez minutos de embaraço partiram. Maria fustigou a égua que desatou num galope ondulado. Sentia o ventinho queimar-lhe a pele. Tinha prazer em se ver assim insulada nos campos que a meia paz da invernia e do crepúsculo assombrava. Via-se só criava na imaginativa um ambiente de tragédia e solidão. De quando em quando olhava para trás. Nhô Pires muito calmo seguia-a perto. Tomava-a então uma raiva impaciente do marido. Fugir, distanciar-se! O relho feria de novo o dorso do animal. Nova galopada. Maria já bastante hábil procurava os atalhos as descidas as ladeiras ríspidas. Nhô Pires atrás calado sustentando-a com os olhos. Uma onda mais resistente de brisa derrubou o chapéu de Maria. Ela soube que o marido atrás retinha as rédeas da cavalgadura. Apear-se-ia para lhe erguer o chapéu… Numa risada vitoriosa, mordendo a égua com os joelhos, chicoteou-lhe a barriga.
Sinistramente na calva do pasto entre arvoretas esqueléticas amazona desgrenhada que o cavaleiro se esforça por alcançar… Rússia…
— Maria, que loucura! Tome o chapéu.
Odiou-o. Refreou a égua.
— Vamos voltar.
— Que é isso, Maria? acalme-se. Você está nervosa hoje.
Os cavalos voltavam a passo fumegantes. Sombras abismais subiam da mata. Os últimos pios dos anuns. A impaciência dos cavalos… Que tristeza angustiosa dentro d'alma… A escuridão crescia no céu. Mugir de vaca longe. Auc, auc, auc… Grandeza misteriosa… Brasil…
Maria jogou a capa sobre uma cadeira. Tirou o chapéu num gesto doente. Deitou-se na rede. Fechou os olhos para que o marido não conversasse. Seis e meia. Noite velha.
O serão foi vazio. Nhô Pires sentou-se junto à mesa perto do lampião. E assim ficou recurvo, mãos cruzadas sobre a toalha de quadros. De tempo em tempo olhava tímido a mulher. Nada.
Às oito horas como sempre Maria fez servir o leite com farinha para o marido. Tomou café. Retiraram-se ambos cada qual para o seu quarto depois dum boa-noite sem cor.
Maria, corpo unicamente, apagou a luz. Mesmo vestida deixou-se cair sobre a cama. Como esquecida de si própria. Não sabia pensar. Às vezes voltava-lhe durante segundos a consciência das coisas, então escutava com curiosidade infantil os batidos do coração e admirava-se da incapacidade em que estava de descobrir o que queria. Muito raro diluída como num fundo de câmara quase negra, a figura do Tonico. A promessa do Tonico… Mas não doía, não fazia mal. Talvez ela não acreditasse, não quisesse acreditar…
Tempo ruim lá fora.
Às nove horas o macuco piou.
Maria levantou-se sobressaltada compreendendo enfim a realidade. Ímpetos de chamar o marido, contar tudo. Chorou de raiva. Depois soluçou ajoelhada junto à cama. Não sabia bem por que chorava. Irritava-se consigo mesma porque queria chorar muito e às vezes sobrestava o choro distraída a escutar os soluços.
Por mais de duas horas espaçadamente ouviu o macuco piar na perobeira. Depois o silêncio estúpido.
Teve um despeito quando o macuco não piou mais.
Dormiu profundamente.
— Você ouviu? Esta noite um macuco veio piar bem em frente de casa, na mata. Pertinho. Outra vez não me venço.
— Não vá!… é uma loucura!
— Loucura por quê?
— A doen… a tosse pode voltar. Está tão frio!
Nhô Pires olhou-a com vontade de contar sofreres. Pretendeu orgulhosamente guardar-se. Mas disse tudo num:
— Que tem!
Doloroso, quase confissão de suicídio aquele “que tem!”. Maria envergonhou-se do afastamento em que deixava o marido. Num impulso de coração chegou-se a ele, segurou-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-o como a pai na testa. Nhô Pires circundou-lhe a cintura com braços receosos. Cerrou os olhos e baixando a cabeça colou os lábios no pescoço nu da mulher. Essa fraqueza que a invadia… Ah! Que importa… Deixar-se conduzir assim… No quarto dele!… Leito contaminado… Que importa!… Delirou. Pela primeira vez teve prazer. Querido! meu amor!… Tomou-se de medo invencível. Estremeceu violentamente e libertando-se dos braços do marido, fugiu para o quatro dela.
Fechou-se por dentro. Trêmula agitada com um sorriso nervoso tirou do lavatório o vidro de água-de-colônia. Derramou-o sobre o ombro, sobre os seios, rosto, cegando-se. Mais raciocinada embebeu uma esponja em álcool. Esfregou-a depois fortemente nos lugares onde tinham pousado num momento de recompensa os lábios de nhô Pires. Atirou a esponja pela janela. Começou a pensar.
Estava muito feliz. Orgulhava-se da ação que praticara. Via-se heroína, coroava-se mártir. Imaginou-se com mais forças para lutar contra a ordem do Tonico e pela primeira vez de longe detestou-o. Quando saiu do quarto nhô Pires não estava mais na casa.
Foi à cozinha. E cantarolava. Preparou os bolinhos de que o marido tanto gostava. Não pensou senão nele. Entrou pela segunda vez naquele quarto nupcial onde há tanto não ia, para ver se estava tudo em ordem. Colheu flores para o jarrão da cômoda. Vestiu-se melhor. Ataviou-se mesmo. Sorriu para a própria alegria.
Como estava livre, numa grande calma! Impacientava-se com a demora do marido. Ralhou-o mesmo porque se retardara. Jantou bem conversando alto. Ri, criança! Nhô Pires contemplava-a sorrindo, feliz, admirado com a transformação.
À tarde ela quis passear outra vez. Numa ousadia em que se catalogou perto das santas pediu o semi-trole. Mas com a condição… Devia tratar-se mais. Não saísse de noite… Prometido?
Só com as sombras noturnas os temores voltaram. Devia ter avisado o Tonico… Quis pedir outra vez ao marido que não saísse. Se ele desconfiasse? Parecia-lhe tão fácil a verdade que qualquer palavra diria tudo. Prolongou o serão. Mas abstrata cheia de pasmos cansados. Imenso desejo de dormir.
Às oito e meia deram-se o boa-noite.
Maria fechou-se por dentro como quem procura defender-se. Atirou-se na cama vestida, sem nenhum sono. Às nove horas batidas no relógio da sala deram-lhe quase um desmaio. Admirou-se de não ouvir o macuco piar. Esperou uns minutos. A qualquer ruído estremecia de terror. Não era o pio. Desistira. Graças a Deus! Desejos inconscientes de ouvir o canto da ave. Raivas do enteado. Havia de contar ao marido!
O macuco piou.
Ela ergueu a meio o corpo sobre os cotovelos, devorando num êxtase o som. Abrira olhos deliciados dentro da treva. Encolheu-se toda no leito. Chorava gritinhos irritados. Pôs o cobertor sobre a cabeça. Tirou-o novamente. Queria ouvir os pios. Impacientava-se quando demoravam muito. Ia se erguendo e se espichava muito em curva sobre a cama. Novo pio. Encolhia-se outra vez, miudinha, enrolada, tolhida pela aflição.
Nhô Pires deitara-se preocupado com as contradições da esposa. Tão alegre primeiro, tão solícita e aquela mudez súbita… Não sabia responder. Doença?…
Ao primeiro chamado do macuco levantou a cabeça do travesseiro e escutou. Diacho, que provocação!… Vagamente luziu-lhe na memória o conselho da mulher. Mal se continha já. Arfou antegozando o tiro. Levantou-se rápido. Vestiu-se. Calçou as botas. Esperou novo pio. Irresolução. Podia piorar. Maria tão amorosa pela manhã. Era possível que voltasse para ele. Terceiro pio. As recomendações do médico. Pô-las de lado. Maria… Descalçou as botas. Irresolução. Outro pio. Calçou as botas. Tomou da arma. Cobria-se bem… Dois minutos com a mão no trinco. Irresolução. Saiu do quarto. Foi até a porta da mulher. Andava pesado. Se lhe dissessem que o impelia o desejo de ser obstado contrariado impedido por ela, irritar-se-ia. Maria ouviu-o retransida, paralítica. Ouviu os passos afastarem-se. Ouviu os passos fora na escadinha da varanda.
O silêncio apagou tudo por fim.
Atonia. Lassamente derrubara os braços a cabeça na cama. Sem forças para um movimento só. Divagava. Viu-se em lágrimas à janela quando partia o enterro pobre da mãe. Começou a observar a cor curiosa da treva, meia avermelhada meia loura… Outro pio.
Saltou da cama. O perigo de Tonico projetara-se-lhe no coração. Protegê-lo! Morrer por ele se preciso!… Tonico!… Envolta na capa escura correu para fora do quarto abriu a porta da varanda procurou o marido no limpo da baixada. Não o viu mais. Foi-lhe atrás.
À entrada do mato espaventou-se com a escuridão. Era uma noite negra. Titubeou. A ideia da morte do amante sufocava-a intoleravelmente. Seguia machucando-se nos cipós nas arvoretas. Torcia o pé a cada passo. Se errasse a direção… O galho desnastrou-lhe o cabelo. Rasgou-se a blusa nos espinhos. Sangue. Arquejava. Avançou mais lento. Marretava troncos. Afundava o rosto na vegetação. Salvar Tonico! Parou. Mais tato agora. A perobeira devia estar perto. Nítida compreensão. Cumplicidade. Muito cuidado no pisar as folhas secas… nhô Pires certamente por ali… Procurou a árvore com os sentidos… Mais um passo. Tiro.
O baque surdo. Ruído de animal pesado a correr.
Nhô Pires estranhou o barulho. Desfechou o segundo cano no som. Continuava. Quis perseguir. Pisou numa coisa mole… Gemido humano!… Recuou. O fósforo. Maria mais que branca respirava mal. Nhô Pires adivinhou a verdade. Um sopro noroeste de ódio queimou-lhe o pensamento, secou-lhe a alma. Levantou-se. Enormemente esguio. Era uma noite feia. Armou a espingarda. – Peste… Atirou. Era uma noite muda. Um derradeiro estremeção. Os olhos de Maria abriram-se muito, já cegos. Fecharam-se.
Nhô Pires estava só. Essa calma oleaginosa que o inundava… Admirou-se de não sofrer. E voltou. Lembrou o outro. Achá-lo-ia. Amanhã… Tinha sono.
João esperava-o na varanda da casa com boa advertência:
— Mecê não há-de sará nunca com extravagância desta! Ouvi os tiro e falei pra mim: Ora! pois nhô Pires tará caçando com esse friu!… Vim vê… Matou macuco?
— A fêmea. Agora falta o macho.
João olhou-o admirado:
— E cadê ela!
Agarrando o braço do amigo nhô Pires levou-o para o mato.
Era uma noite longa.
No outro dia a mulher do João, muito assustada contava a toda gente que o marido fora a São Paulo levar dona Maria. Tinha adoecido de repente, é! Nhô Pires também piorara… Meu Deus!…
O fazendeiro não saiu de casa nesse dia. Dormira profundamente. A calma que o vestia era talvez cansaço da grande dor. Ao acordar mordera a saudade dos que se sentem sozinhos. Faltava gente em torno dele. Tinha necessidade de alguém. João partira no trole. Deveria ficar muitos dias longe. Iria a São Paulo para enganar. Nhô Pires obedecia indiferente. E pela primeira vez se recordou da outra esposa. Desejou-a. Lembrou-se dos filhos. Qual! Só com largos espaços uma carta. Pouco explícita. Poucas linhas. Amou-os. Quereria tê-los consigo contar-lhes a tristeza… E Quininha? Há uns oito meses sim uns oito meses que não vinha notícia… Pela primeira vez ainda imaginou que envelhecera. Olhou o espelho. Infantil. Envelhecera. Teve medo de morrer. Levantou-se. Passeou pelo vasto casarão abandonado. Pesou-lhe aos ombros a poeira daquele mutismo. Vagueou pelos quartos. Seu silêncio amedrontava. Os criados fugiam dele. Caíra sobre a fazenda a impaciência alerta das apreensões. O próprio gado! Coisa esquisita… E uma dúvida na gente da fazenda, do arredor… A primeira estação do caminho de ferro era a dez léguas dali. Alguém partira entretanto.
Num momento o velho fazendeiro apareceu à porta da varanda. Procurou o mato em frente. Lá estavam os últimos galhos da perobeira dominando a humildade implexa das ramas em redor. Nhô Pires imagina. Desce o tronco da árvore e a poucos passos dela num bem disfarçado chão de folhas penetra fundo na terra. Estar deitado junto do corpo que tanto amara!… Afinal tão moça, obrigada a aguentá-lo… Virou as costas à paisagem. Foi fechar-se no quarto. E chorou.
Foi ridículo o pranto. Nhô Pires perdera todo o orgulho. Pusilânime até. Aceitara a intriga com que o João planejou evitar as complicações. Nem mais ódio para enrijá-lo. O amante… Parecia-lhe impossível agora descobrir.
As primeiras sombras da tarde amedrontaram-no por tal forma que não pôde suportar a solidão. Queria alguém. Carinho? Gente. Gente com ele. Não era a primeira vez que se lembrava do Tonico. Mandou um camarada à sitioca do filho, chamando-o. Foi esperá-lo na varanda. O interior da casa sufocava com a impressão muito fresca dos dedos de Maria. Curvou a cabeça para o peito. Ficou imóvel. Dois dias atrás encontrara ali mesmo ela cismando… O empregado voltava. Encontrara apenas o camarada de nhô Tonico… Que nhô Tonico partira na véspera para Uberaba…
Nhô Pires ficou inerte um instante. Adivinhava tudo. Por várias vezes admirara-se de ter errado o segundo tiro… A verdade acordava-o num sobressalto. Maria e Tonico… Tantas vezes… Lançou mão do animal. Fustigou-o.
Com o ruído o camarada do Tonico assomou à porta da casinhola.
— Nhô Tonico foi pra…
Nhô Pires empurrou-o. Penetrou na casa. No acervo revolto das cobertas Tonico procurava levantar-se ferido na coxa.
— Meu pai, vassuncê pode me matar. Fui eu mesmo.
À voz covarde do filho cessou o ímpeto assassino que nascia… Um riso lateral de desilusório desdém repuxou o lábio de nhô Pires. Tonico olhava-o tremendo, sustido a custo nos cotovelos. Seu medo fazia oscilar a cama sórdida. Nhô Pires rosnou por fim:
— E nem teve coragem de defender ela… Cachorro!
Muitas vezes cortou com o relho o corpo do filho.
— Agora vá-se embora! Vá-se embora e já!
Saiu da casa. Ao camarada:
— Apronte a besta.
Esperou. A noite ia muito nova, ainda hesitante. Aves noturnas morcegos insetos a riscar o verde incerto do último crepúsculo.
Pronta a besta o camarada entrou na casa. Pouco depois horrivelmente pálido abobado pela dor Tonico apareceu com o auxílio do outro. Foi um custo montar. O camarada amarrou a pequena trouxa na sela.
— Não me apareça mais. Nunca mais, hein!
Breve a sombra dissolveu Tonico e besta. Por fim o silêncio sobrepujou o trote do animal. Mas nos ouvidos continuando plaque plaque… maquinal.
Ficar assim olhando muito tempo a escuridão sem nexo… para quê? Nhô Pires a passo volta para a casa-grande.
E muito embora o João jurasse que nhá Maria morrera em São Paulo, o camarada de Tonico jurasse que este partira só e expulso, toda a gente do bairro sabia muito bem que eles tinham fugido juntos enquanto nhô Pires caçava. Daí em diante o fazendeiro viveu cercado de maior carinho e piedade. Durou pouco. Na hora da morte contorcia-se vendo enormes macucos de asas espalmadas saltitando em redor do leito.
Mário de Andrade foi um escritor modernista, crítico literário, musicólogo, folclorista e ativista cultural brasileiro. Seu estilo literário foi inovador e marcou a primeira fase modernista no Brasil, sobretudo, pela valorização da identidade e cultura brasileiras. Ao lado de diversos artistas, ele teve um papel preponderante na organização da Semana de Arte Moderna, em 1922.

