Asas brancas
Neste conto, a romancista japonesa Yuriko Miyamoto nos revela uma faceta sensível de sua escrita ao explorar o luto sob perspectiva de um pombo
Este conto foi publicado em julho de 2025 no número 29 da revista Cadernos de literatura em tradução, da Universidade de São Paulo, com tradução de Karen Kazue Kawana. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 16 de setembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Certa tarde, o pombo macho entrou primeiro no ninho de madeira. Ele se instalou timidamente a um canto e chamou a fêmea. A fêmea veio. Ela pousou no poleiro depois de olhar para dentro inclinando a cabeça na entrada. Eles se aproximaram e aconchegaram os corpos um no outro.
Ainda estava claro do lado de fora. O céu a oeste brilhava com particular intensidade devido aos resquícios do pôr do sol que iluminavam a borda recortada de uma nuvem pesada e o telhado de uma casa com ar de palhoça no horizonte aberto. Uma fileira de carvalhos bronzeados cintilava com reflexos quentes, mas a água do pequeno riacho sob ela, já sonolenta, tinha uma tênue e fria opacidade. O som dos arados dos seres humanos que terminavam o trabalho e o frêmito dos animais de criação podiam ser ouvidos por todos os lados do campo acompanhado de uma ligeira cerração vespertina.
Aqui, no entanto, prevalecia a tranquilidade silenciosa e acolhedora de uma noite que caía com grande precocidade. À vontade, sentindo o prazer de sono, o pombo macho arrulhou docemente:
— Gruuuuu!
A fêmea levantou a perna delgada e coçou o lado da orelha com graça. Então se aconchegou ainda mais ao macho. Com as cabeças coladas uma na outra, como haviam dormido centenas de noites desde que eram dois filhotes, era assim que procuravam dormir.
O pombo macho acordou no meio da noite com uma sensação estranha. A fêmea não estava ao seu lado no poleiro. Ela estava na parte de baixo. O som suave e querido de penas sendo ajeitadas vinha dali. Nesse momento, o brilho intenso de uma lâmpada penetrou pelas frestas do ninho. O macho reconheceu a forma alva da fêmea. Ele esticou o pescoço do poleiro e bicou de leve a esposa que, por alguma razão, não estava ao seu lado. A fêmea se mexeu outra vez e emitiu um fraco:
— Grugrugruuuuu!
Como a noite de outono ao seu redor, essa voz estava prenhe de emoção. Movido por uma mistura de tristeza e amor, o pombo macho deu pequenas batidas no poleiro com o bico, procurando fazer com que ela viesse para seu lado. Um leve farfalhar de asas se fazia ouvir de vez em quando, mas, ao final, a fêmea não voltou para seu lado.
O alvorecer iluminou os olhos do pombo. Um grande infortúnio se revelou ao macho, ele caminhou ao redor levantando as pernas bem alto enquanto arrulhava. A fêmea havia morrido durante a noite.
O pombo macho esqueceu a morte da fêmea. Durante o dia, quando o sol brilhou ao ar livre e as florestas longínquas o tentaram com as copas de árvores perenes, o pombo macho voou galantemente em sua direção como uma flecha branca. Entretanto, quando o anoitecer se elevou sobre a esfera terrestre e estimulou seus instintos, o pombo macho sentiu uma súbita solidão. Ele vagou irrequieto ao redor do campo e da sombra da estufa, cujo vidro faiscava com o sol poente, enquanto arrulhava:
— Goruhuu! Goruhuu!
Ele procurou avidamente pela fêmea. Bicou desde o fundo do vaso de ninfeias secas, onde havia apenas barro, até a palha usada na proteção contra a geada. Chamou ainda mais pela esposa, gritando de todas as formas possíveis, ardendo de amor e consumido por uma profunda e solitária tristeza. Quando a escuridão vespertina aos poucos se intensificou, ele entrou sozinho no ninho aos prantos. Cansado da busca, o pombo macho adormeceu em meio às lembranças de centenas de noites. Porém, com dificuldade para dormir, despertava com frequência. Ele deslizava o corpo com suavidade e sofreguidão, mas a fêmea não estava ali, havia apenas as farpas do ninho.
Atônito, o pombo macho chorou. Seu criador notou a solidão do pombo macho e pendurou um espelho ao lado do ninho. À tarde, ele ouviu o armário em que os cereais eram guardados ser aberto. Enquanto ciscava os grãos polvilhados sobre o piso de terra batida da área, o pombo macho se assustou e, de modo involuntário, voou baixo por alguns metros batendo furiosamente as asas contra o solo. O que era aquilo que estava ali? En-quanto ciscava, o pombo macho mais uma vez teve a impressão de que era observado por olhos estranhos. Medo e curiosidade nasceram nele. O pombo macho perdeu o interesse em recolher os grãos. De longe e com muita cautela, ele passou várias vezes diante daquele lugar. O pombo macho arrulhou com inesperada alegria:
— Gruhu! Gruhu! — Sua esposa estava ali, observando-o. — Gruhuu! Goruhuu! Goruhuu!
Sufocado pela emoção, o pombo macho cumprimentou a fêmea. Assim como ele, a fêmea o observava fixamente com olhos calorosos. Inflou graciosamente o pescoço e arrulhou. Embora nossos bicos se toquem, por que minha adorável esposa não se aproxima? Sua mente parecia enlouquecer com esses questionamentos. Ele se precipitou para o interior do ninho. Com a cabeça batendo no teto, olhou atrás de si. Não viu a fêmea. No entanto, quando desceu ao piso de terra batida da área, não restava dúvida, havia outro pombo ali. O pombo macho esqueceu seu medo e, aflito, arrulhou tocando o bico do outro pombo com o seu.
O criador guardou o espelho, mas o pombo macho não se esqueceu do pombo que acidentalmente havia visto. Ele estava convicto de que aquela era sua esposa. Hoje e no dia seguinte, perseverante, o pombo macho voou pela casa procurando pela fêmea que havia perdido novamente de vista. Muitas alvoradas e crepúsculos se sucederam. O inverno chegou. O entardecer se tornou tão curto que, de súbito, dia e noite pareciam se seguir um ao outro.
Em um desses céleres ocasos, o pombo macho entrou sozinho na casa. Não havia ninguém e a porta de correr da sala estava aberta. Ele sentiu fome. Quando levantou voo para se dirigir ao armário onde estavam os cereais, o pombo macho o viu outra vez, o outro inesquecível pombo. Então abandonou o objetivo inicial de seu voo e retornou, batendo o corpo no tampo da lâmpada apagada que pendia lugubremente. Era um lugar um pouco alto. Havia vários objetos no caminho, quando o pombo macho tentou pousar, eles caí-ram produzindo um ruído incômodo. Porém, como poderia perder de vista aquela que se encontrava ali? O pombo macho arrulhou com uma felicidade cheia de uma paixão ainda mais intensa do que aquela que sentiu quando acreditou ter visto a fêmea pela primeira vez:
— Grugohuu! Grugohuu!
Ele se aproximou do espelho levantando as pernas de felicidade e saudade. Viu a figura alva tão querida também se aproximar do outro lado. O pombo macho continuou a chamar a fêmea com doçura e familiaridade, com a mesma voz com a qual a chamou do alto do poleiro algumas noites. Sem se cansar de demonstrar seu amor, ele a tocou com o bico. Mesmo que sua aparência estivesse um pouco diferente, aqui estava a fêmea. Ele não está mais sozinho. Como nas noites que se foram, ele passará as noites de inverno dormindo aqui ao lado dela.
O pombo macho colou seu corpo o máximo possível ao seu reflexo no espelho. Sua estranha esposa era fria. — Extremamente fria. Ah, mas isso não tinha importância! O pombo macho fechou as pálpebras. Ele se aconchegou mais uma vez à fêmea e enterrou o pescoço entre as penas.
Yuriko Miyamoto (1899 – 1951) foi uma romancista, contista, ativista social e crítica literária japonesa ativa durante as eras Taishō e Shōwa do Japão. Ela é mais conhecida por sua ficção autobiográfica e envolvimento em movimentos de libertação proletária e feminina. Viajou por vários anos para os Estados Unidos e a União Soviética antes de retornar ao Japão, onde suas obras foram fortemente censuradas e ela foi presa repetidamente por suas opiniões políticas. Fundou e dirigiu diversas revistas proletárias e feministas ao longo de sua carreira, muitas das quais também foram censuradas.

