As cerejeiras
Neste conto de João Luso, o escritor luso-brasileiro reflete sobre a transitoriedade da vida, da beleza efêmera e das mudanças inevitáveis do tempo através da imagem de uma cerejeira
Este conto foi publicado em junho de 1896 na terceira edição da Revista Bohemia, disponibilizado pelo APESP- Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ele foi escolhido para o encontro do Terapia Literária da Sala Tatuí do dia 2 de setembro de 2025. Inscreva-se em www.salatatui.com.br para receber o link do Zoom.
Lá vae o bom abbade, choutando na sua velha Joia, caminho de Valle de Amores.
Para Valle de Amores, toma-se á esquerda do adro direito ao rio, depois na primeira encruzilhada, onde ha umas almas, corta-se por um longo piso entre fasendas de amanho, ladeado de oliveiras. Não tem que errar. Passando a quinta da Bouça (mesmo da aldeia se lhe enxerga a casa de moradia e um boccado de vinha) é uma esplanada, relva e castanheiros, e ao fim — os casebres de Valle de Amores.
A casa da senhora viscondessa — casa ? palácio se me fazem o favor! — difierença-se de longe, grande, seus ares de ruina na cal velha, mas alegre, com uma das paredes toda vestida de trepadeiras em flor.
Estávamos em maio. O campo cobria-se de malmequeres, de papoulas, de não - me - esqueças ; nas ribanceiras destacava vivamente o amarello forte das giestas; e era o tempo da passarada começar os ninhos, n'uma festa de cantigas repenicadas, e das cerejeiras vergarem os ramos sob o peso rico da fructa.
O bom abbade retardava o chouto pesado da égua, encantado com o campo, no goso d'aquelle lindo meio-dia primaveral. A Joia, mettera a passo ; e o velho cavalleiro, sem pressa, embora com um jantar de anniversario á espera lá em Valle de de Amores, largara as rédeas, pitadeava-se regaladamente, olhando as arvores.
A senhora viscondessa entrava esse dia na casa dos setenta. Rica, muito esmoler e amiga da pobreza, de boas maneiras para todo o mundo, não havia quem lhe não abençoasse o nome fidalgo. Extremamente devota, a senhora viscondessa; toda a sua casa e o mais que ella encerrava tinha um cheirozinho a egreja, de consolar. A riqueza de seu oratório, tudo ouro e sedas, era fallada por longes léguas em redor. Isso gabavam-lhe a virtude! Não faltava mesmo quem a achasse meio santa.
Imaginem lá então a somma de visinhança que accudira a Valle de Amores, a trazer-lhe os cumprimentos. Na sala já não cabia mais gente, a pobre senhora andava n'uma roda viva para attender a todos. Das pessoas assim graúdas, só faltava o abbade.
Mas o abbade lá vinha, na velha Jóia, que, graças á distração do dono, mal se mechia, estendendo vastas vezes o pescoço para abocanhar a relva, tasquinando com tão indifferente pachorra como se andasse a pastar em vez de ir conduzindo um padre a um jantar de annos em casa rica. Ao chegar á Bouça, o abbade avistou a filha do quinteiro, que andava ás cerejas. Rapariga de truz ! Ella, entretida, cantando um fado alegre, não ouvira as pisadas vagarosas da égua. E o velho que lhe ia passar mesmo por baixo do ramo!
Bem lhe custava decerto ir adeante sem dar ao menos as boas tardes; mas, com um escrúpulo tremendo de olhar para cima, baixou mais a cabeça sobre a crina da Jóia- Quando porem, a sombra da grande cerejeira o cobriu, ou por acaso ou porque elle puchasse insensivelmente a rédea, a égua parou, atolando o focinho n'uma moita viçosa. Nesse momento, a voz clara, sadia, virginal da rapariga cantava:
-Dizem que isto de cantigas mentem sempre ... Eu cá não sei; estas cantigas que eu canto são verdadeiras de lei.
Como que uma mão endiabrada e galhofeira se agarrara ao queixo do abbade, querendo erguer-lh'o á força. Ora o disparate! Não que ás vezes a gente lembra-se de cada uma. . . Sume-te! E alargou as pernas para fustigar com os calcanhares a égua preguiçosa. Mas, sem força deteve-se. A Jóia pastava cynicamente. E uma tentação cocegava e aquecia o sangue velho do bom abbade. Que a rapariga era de truz! E aquillo sempre havia de ser senhora de uma perna...
Ella continuava a cantar:
-Hei de cortar os cabellos na noite de S. João, e dal-os ao meu Manoel p'ra cordas de violão.
Ai, Deus nos valha! De repente n'uma resolução, ergueu a cabeça... E olhou, e viu.
Era uma perna, não muito grossa, essas enormidades não ; muito delicada também não ; mas com uma cozinha carne moça... E então bem feita que parecia de estatua. Só se enxergava o boccado até o joelho, mas que riqueza de boccado! Os olhos do abbade luziam, banhados n'um goso tonto, quasi pueril. Machinalmente, puchara do bolso a caixa de rape ; e, seili desviar a vista d'aquelles encantos, sorveu a mais longa, a mais deliciosa pitada da sua vida.
A cachopa cantava sempre:
-O violão do Manoel é um coração, nada mais; por isso é que quando toca só dá suspiros e ais.
E, tendo depinicado todo um cacho de cerejas, ia mudar de ramo. Então o velho, receioso de ser percebido na sua horrenda curiosidade, atirou furiosamente os calcanhares á barriga da Jóia, que, estranhando o castigo, metteu logo a trote, desengonçada e tropega.
Pois até Valle de Amores, o bom abbade não deixou de ver a formosa perna, rosada e d'uma estructura per éita, entre as saias. Via-a distinctamente crescer e engrossar, os seus dedos percorriam-lhe a pelle arripiada por um ligeiro frêmito sensual.
E debalde pretendia espantar para longe a luminosa imagem. Que homem ! pensava. Um velho ferrugento, imprestável. Ha quantos annos os seus sentidos não acordavam para o peccado !
Ha quantos ? Em rapaz, durante as ferias do Seminário, ainda se desmandava ás vezes, arrastado pelos impulsos desvairados e ardentes do sangue novo. Mas, tomando ordens, encerrara todos os pensamentos na adoração divina, longe do mundo e das suas tentações. Depois, com o tempo, esquecerase. Tudo vae do costume. Agora, as suas companheiras de perdição já para lá estavam, lá para d'onde se não volta; e os desvarios da mocidade, se os enxergava ainda, era a muitos annos de distancia, vagos como sombra, quasi imperceptíveis. ..
Alcançando finalmente Valle de Amores, a Jóia pareceu ganhar dobrada força. Toda se enfeitava, a pileca, que nem animal de estimação, fogoso e de fina raça. Fez uma entrada bizarra no pateo da senhora viscondessa, e, alijada a carga, atirou aos ares um nitrido vibrante e glorioso. Veiu tu Io ás janellas. Mas já o abbade trepava a escadaria de pedra, longa e sombria, com os degraus cavados no meio pelo uso secular.
Em cima, «muito boas vindas ao senhor abbade,» e «suas bênçãos,» e logo reprehensões doces pela demora — que realmente havia sido demais, concordava elle, pedindo mil desculpas. Mas tudo acabou em riso " Queriam saber por onde se tinha gasto até semelhantes horas. Passavam já trez quartos do meio dia! Entretido pelo campo com as lavradeiras, hein? Elle, meio atrapalhado, sorria, gaguejava. E, sem razão alguma tinha córado, o velho ...
Mas um forte morgado, parente longe da senhora viscondessa, que não podia mais disfarçar a fome, dominou a troça, com o vozeirão solemne:
-Excellentissima prima, creio que estamos todos. E se a canjasinha ha de esfriar ...
A senhora viscondessa ergueu-se da velha cadeira de espaldar, e foi atraz d'ella um magote de gente, onde trez casacas antigas destacavam no seu talhe pittoresco, com as abas esguias, com o debrum amarellado pelo tempo.
Comeu-se á tripa forra. A's primeiras iguarias, ninguém fallava, cada qual recolhido ao seu prato e esbugalhando o olho para o seguinte. Foi lá pelas alturas do peru recheado e da vacca em arroz de forno que soltaram as primeiras phrases d'uma palestra banal sobre lavoura e décimas. Mas logo as compotas de doce foram descobertas, desarrolhando-se o porto; e, como por alli tinha corrido muito vinho e os estômagos impavam de satisfação, succederam-se os discursos, copiosos uns, outros curtos, comedidos, simplesmente á sande de sua excellencia e de sua excellentissima família; e o morgado agradecia, cheio d"aquelle nobre parentesco. Quem fallou mais foi o regedor; já pisco, porem, e vacillante, embrulhava as palavras, repetia sempre as mais pomposas, iruma escassez deplorável de maré. Mas achando subitamente uma imagem brilhante, qual a comparar a senhora viscondessa á sua magestade D. Maria Pia - o anjo regio da esmola — atirou-a como uma bomba e , extenuado, entre applausos.
_. D'ahi a conversa generalisando novamente. O valente elogiava as olaias plantadas pelo defunto senhor visconde no terreiro alli defronte, e que eram realmente lindas agora em maio, com a vasta floração côr de mosto. Mas a senhora viscondessa achava-as muito garridas (se bem que quasi roxas) e só mesmo por um respeito delicado as conservava.
E cada um apontou a sua arvore predileta. Para o mestre-escola o carvalho era sua predileta. «o roble gigantesco »,: o alumo também, muito magestoso; um lavrador opinou pela rica oliveira, que dava o aseitezinho.
— E arvore modesta, ajudou o mestre - escola.
Então a senhora viscondessa declarou francamente a sua preferencia pelo chorão. Tão tristes, davam tanta ternura...
— Que diz o senhor abbade ?
— Eu cá não digo nada, respondeu elle, mirando o porto dourado do seu calix. E logo opinou : — Emfim, pareceme que a cerejeira. .. Quando bem carregadinha. hein ? Ainda ha pouco ...
Mas calou-se, embaraçado e pallido, rolando bolinhas de pão na ponta dos dedos magros.
João Luso (1875-1950), pseudônimo de Armando Erse de Figueiredo, foi um jornalista, contista, poeta, crítico literário e tradutor luso-brasileiro. Em 1893 veio para o Brasil e logo iniciou sua colaboração com a imprensa, já com o pseudônimo que o tornaria célebre. Trabalhou com os jornais “Diário Popular”, (de S. Paulo) “O Estado de S. Paulo”, “Correio Paulistano”, “Diário de Santos” e nas revistas “Pauliceia” e “Revista Literária”. Criou a coluna “Dominicais”, na “Revista da Semana”, onde tratava das questões femininas com o pseudônimo Clara Lucia.

